Rio de Janeiro, 20 de Abril de 2026

China e Rússia se unem por puro pragmatismo, diz analista

Quinta, 23 de Março de 2006 às 07:28, por: CdB

A China e a Rússia estreitaram seus laços estratégicos nesta semana quando o presidente russo, Vladimir Putin, revelou em Pequim uma série de acordos para o setor de energia. Mas os russos continuam preocupados com o perigo de se aproximar em demasia do vizinho em ascensão, disseram analistas.

- Trata-se de uma relação cada vez mais intensa, mas que partiu de um patamar muito baixo. A visita de Putin mostra uma postura muito mais empresarial nessas relações. Mas há o paradoxo de que, quanto mais as relações melhoram, mais os russos se preocupam com a China - afirmou à agência inglesa de notícias Reuters Bobo Lo, um especialista em política externa da Rússia no instituto Chatham House, em Londres.

Putin e o presidente chinês, Hu Jintao, supervisionaram o anúncio de projetos para a construção de um gasoduto e talvez de um oleoduto para a China, bem como acordos que dão a empresas russas acesso ao setor de refino e aos chineses a chance de explorar petróleo na Rússia. A empresa estatal Gazprom, da Rússia, disse que assinaria neste ano um acordo comercial para criar uma rede por meio da qual a China adquiriria de 60 bilhões a 80 bilhões de metros cúbicos de gás russo. A rede começaria a entrar em funcionamento em 2010.

Putin também deu indícios de que a China pode ser favorecida na disputa com o Japão em torno de um oleoduto que vai até o oceano Pacífico. O presidente, porém, não chegou a prometer o que os chineses esperavam. Os meios de comunicação chineses receberam a vista de dois dias de Putin como um novo ápice das relações, que por décadas foram marcadas por tensões políticas e territoriais.

A edição internacional do jornal People's Daily, porta-voz do Partido Comunista da China, disse que os discursos dos dois líderes "levaram a amizade entre a China e a Rússia para um novo patamar". O governo russo recebe com satisfação o aumento dos laços comerciais com a China, mas o crescente poder militar e econômico dos chineses e a influência mantida pelo país sobre o leste da Rússia, uma região de baixa densidade populacional, continuam a deixar muitos integrantes do governo russo preocupados, disse Lo.

Hu corteja Putin há muito tempo. O dirigente russo, porém, mostrou pouco interesse pela China ao tornar-se presidente. No ano passado, os dois líderes reuniram-se quatro vezes, colocando fim a disputas fronteiriças surgidas décadas atrás e assinando vários acordos diplomáticos. O governo chinês mostrou frustração crescente devido à postura adotada pelos russos no setor energético. Os acordos prometidos demoraram para sair apesar do potencial de desenvolvimento das relações entre a Rússia - segunda maior produtora de petróleo do mundo - e o vizinho.

- Esse foi certamente um grande passo adiante em vista da especificidade dos acordos. As relações estão se tornando mais pragmáticas, e os dois países parecem ter percebido que precisam continuar avançando - disse Zha Daojiong, um especialista em diplomacia na Universidade do Povo da China, em Pequim.

Novos acordos

Há anos a Rússia tem cortejado os planos chineses e japoneses para o desenvolvimento de oleodutos, na esperança de maximizar seus benefícios e evitar uma dependência excessiva da China, afirmou Lo. E o país pode estar aberto para ouvir propostas vindas do Japão.

- O que a Rússia deseja com seus oleodutos do leste da Sibéria é manter todas as opções na mesa pelo máximo de tempo possível - disse Lo.

Putin realizou uma visita importante a Tóquio no ano passado, ao lado de dirigentes da Gazprom e da Rosneft. Na viagem, o presidente prometeu que o oleoduto abasteceria o Japão bem como outros mercados asiáticos.

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