Apesar de todos os esforços para reduzir a poluição de Pequim e de outras cidades na véspera da abertura das Olimpíadas, a China ainda luta contra o problema na véspera do início das competições.
Nas últimas semanas, a China suspendeu a atividade de algumas fábricas perto da capital, implementou um rodízio de carros e até criou um sistema de alta tecnologia para criar chuvas artificiais, que limpariam a poluição de Pequim.
Ainda assim, a qualidade do ar é ruim e atletas brasileiros já estão tomando medidas para evitar que a poluição afete o desempenho na competição.
'Fenômeno natural'
Em Pequim, as autoridades locais alegam que a poluição está sob controle e que as nuvens cinzentas que pairam sobre a capital não servem de parâmetro para comprovar a situação do ar.
- Essas nuvens e bruma não são poluição. Esse tipo de tempo é um fenômeno natural e não tem nada a ver com poluição - afirmou na semana passada Du Shaozhong, vice-diretor do Departamento de Proteção Ambiental de Pequim.
No entanto, a qualidade do ar e da água em algumas das cidades-sede é questionável.
Medições feitas nos últimos meses por grupos como o ambientalista Greenpeace afirmam que os ares da capital têm mais que o dobro do nível de poluição aceito pela Organização Mundial de Saúde.
O brasileiro Paulo Fonseca, que mora em Pequim, disse que apesar das medidas implementadas pelos organizadores dos Jogos, os residentes da cidade não perceberam nenhuma mudança na qualidade do ar.
O ar parece sólido. A garganta fica irritada e seca. Não se nota uma melhora muito significativa", disse Fonseca à BBC Brasil.
Medidas
Desde 20 de julho os cerca de 3,3 milhões de carros da cidade têm feito rodízio para reduzir a emissão de gás carbônico e desafogar o trânsito.
Só é permitido a cada dia que veículos com placas de terminação par ou ímpar trafeguem alternadamente.
Além disso, as atividades nas fábricas e construções da capital e províncias arredores foram suspensas, para reduzir a poeira e gases tóxicos nos ares de Pequim.
Autoridades chinesas afirmaram que pretendem produzir uma "chuva artificial" para limpar a poluição dos céus da capital, se necessário.
Chen Zhenlin, vice-diretor do Departamento de Administração Meteorológica explicou que Pequim vem testando a tecnologia das chuvas artificiais desde 2003 e que a "solução mágica" consiste em borrifar nuvens com iodeto de prata, um químico catalisador que acelera o processo de condensação da água.
Mas "soluções mágicas" podem não funcionar para todos os problemas. Em Qingdao, sede das competições de vela, a questão é a poluição da água.
Nas semanas que antecederam às Olimpíadas a costa foi invadida por algas verdes que tornaram impossível aos velejadores treinar tranqüilamente.
Uma força tarefa de dez mil soldados e voluntários trabalhou obstinadamente para recolher mais de um milhão de toneladas das indesejáveis folhas marinhas.
- Agora a baia está mais limpa, embora ainda tenha algumas ilhas de algas - disse à BBC Brasil Isabel Swan, atleta que compete na classe 470 e está treinando em Qingdao.
Atletas brasileiros
Os atletas brasileiros preferem não se contentar apenas com as medidas do governo chinês e têm tomado suas próprias providências.
A equipe de remo, por exemplo, cogita utilizar máscaras contra a poluição e trouxe na bagagem uma bombinha de respiração semelhante à usada pelos asmáticos, para garantir oxigenação adequada.
Mas de acordo com João Granjeiro, chefe da equipe de médicos brasileiros que acompanha a delegação olímpica, a poluição não é impedimento.
- Nós não vemos isso como um risco para a saúde dos atletas - porém - só será possível saber o verdadeiro impacto da poluição no desempenho deles na hora da competição - diz Granjeiro.
A má qualidade do ar não chega a ser propriamente uma surpresa para os brasileiros.
Segundo contou à BBC Brasil o chefe da delegação Olímpica, Marcos Vinícius Freire, os níveis de poluição "estão dentro do esperado".
- Já sabíamos há quatro anos o que iríamos encontrar aqui. Então os esportes de rua como maratona, marcha atlética, vão sentir mais, mas os outros países também vão ter a mesma referência. - disse.
- Se comparar com quatro anos atrás, o clima em qualquer cidade do mundo está pior. Cada vez nós vamos ter as cidades mais poluídas e isso é um mal nosso, da nossa geração, e vai ficar cada vez pior daqui pra frente - se resigna Freire.