Os chilenos realizaram um grande festival de poesia no domingo para celebrar os cem anos de nascimento do escritor Pablo Neruda, em um evento que atraiu alguns admiradores improváveis do poeta comunista.
Neruda, que morreu de câncer aos 69 anos de idade, pouco depois do golpe militar liderado por Augusto Pinochet, era um dos autores mais produtivos e mais aclamados do Chile, mas seu trabalho foi apagado do país nos 17 anos de regime militar que se seguiram à morte dele.
Contudo, até mesmo militares participaram das festividades iniciadas há cerca de uma semana e que chegam ao ápice na segunda-feira, dia do centenário. A celebração é o primeiro tributo oficial prestado ao artista pelo governo chileno, atualmente dominado por políticos de esquerda.
Na cidade de Valparaíso, na costa do oceano Pacífico, cerca de 150 pessoas reuniram-se do lado de fora da ex-residência de Neruda a fim de escrever poesias em um grande pedaço de papel desenrolado na rua. Os organizadores do evento pretendem reunir um total de dois quilômetros de poesia, um recorde mundial.
As mesmas Forças Armadas que invadiram a casa de Neruda, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, ajudavam agora a estender pedaços de papel para que estudantes da Academia Naval pudessem homenagear o escritor com criações próprias.
"O Chile evoluiu, e agora todos homenageamos Neruda, mesmo os que nunca se interessaram por ele antes, como as Forças Armadas", disse Rodrigo Bustos, organizador do evento.
Independente de seu interesse por poesia ou de suas opções políticas, os chilenos são bombardeados há vários dias com a figura do poeta, que aparece nos meios de comunicação, no metrô e nas ruas. Grandes restaurantes e uma companhia aérea elaboraram menus inspirados em suas "Odes Elementares", entre as quais há composições dedicadas à cebola ou ao caldo de enguia.
Dezenas de museus e centros culturais organizaram exibições multimídia. Os eventos servem em parte para recuperar a figura do poeta. Muitos chilenos que cresceram sob a ditadura militar (1973-90) dizem que só agora começam a entender a importância dele.
"Não conhecia o trabalho de Neruda como deveria porque sou um filho da ditadura", disse Luis Jara, um conhecido cantor do país.
Na segunda-feira, um trem, o "Trem do Poeta", parte de Santiago (capital) para Parra (cidade natal de Neruda), onde acontece uma celebração oficial a ser comandada pelo presidente chileno, Ricardo Lagos.