Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Chilenos aderem a Neruda em peso no centenário do poeta

Sábado, 10 de Julho de 2004 às 19:21, por: CdB

Uma verdadeira "nerudomania" está tomando conta do Chile, cujos habitantes, em sua maioria pouco conhecedores da obra do poeta, se apoderaram abertamente de sua imagem para comemorar o centenário de seu nascimento.

Centenas de exposições, concertos, recitais de poesia, pratos de cozinha e até mesmo missas crioulas foram organizadas para homenagear o agnóstico Pablo Neruda, segundo chileno a ter recebido o Prêmio Nobel.

É uma movimentação que não tem precedentes no Chile, onde, apesar de Neruda ter sido um dos autores mais prolíficos e mais mundialmente conhecidos do país, sua obra foi durante anos pouco difundida e valorizada, principalmente em decorrência de sua militância comunista declarada.

Neruda viveu no exílio entre 1949 e 1952 porque o governo chileno da época proscreveu o Partido Comunista, cujos principais dirigentes foram encarcerados ou tiveram que fugir do país.

Depois do golpe militar liderado por Augusto Pinochet em 1973 para derrubar o socialista Salvador Allende, o poeta, doente de câncer, sobreviveu apenas alguns dias.

Sua morte, e os 17 anos no poder de um governo que depreciava sua arte, silenciaram seus versos por longos anos.

"Não conheci Neruda como deveria realmente ter feito, porque sou filho da ditadura", comentou a uma emissora de rádio o famoso cantor popular chileno Luis Jara, que agora começou a interpretar alguns versos musicados do poeta, coisa que teria sido quase impensável sob o regime militar.

Jara não é o único. No início da semana, no Palau Sant Jordi, em Barcelona, famosos artistas espanhóis como Joan Manuel Serrat, Victor Manuel, Ana Belén e Miguel Bosé, entre outros, foram os astros de um grande show em homenagem a Neruda. O evento foi promovido pelo governo chileno como parte das atividades oficiais do centenário do poeta

Apesar de poucos chilenos serem grandes conhecedores da obra de Neruda, poucos quiseram manter distância da comemoração de seu centenário.

Para destacar a obra de Neruda, o governo do socialista Ricardo Lagos vem promovendo uma série de homenagens que começam neste final de semana.

Um dos eventos mais vistosos será o "Trem do Poeta", que, encabeçado pelo próprio Lagos e com a presença de vários artistas e intelectuais, partirá no dia 12 de julho de Santiago até a cidade natal do escritor, onde terá lugar a cerimônia oficial de celebração do centenário.

E, se Neruda foi capaz de escrever poemas que abrangem desde os mais profundos sentimentos de amor até peixes chilenos como a enguia, seus admiradores não ficam devendo a ele em matéria de diversidade.

Em vários restaurantes do país, chefs de cozinha famosos estão promovendo diversos pratos "nerudianos", feitos a partir de receitas que teriam estado entre as favoritas do poeta.

A companhia aérea chilena LAN também preparou sua homenagem própria: entre junho e agosto está oferecendo, em todos seus vôos, um cardápio com pratos que aludem ao poeta.

Segundo um representante da empresa, "o cardápio está sendo muito bem recebido pelos passageiros, que se surpreendem um pouco com esse menu, que inclui um guisado de carne de boi, ave e legumes ou um filé de enguia recheado de ostras e camarões".

Acaba de ser inaugurada em uma das amplas salas do Museu de Belas Artes de Santiago uma exposição multimídia na qual se pode ler e escutar, na própria voz de Neruda, uma de suas obras mais populares: "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada".

Os visitantes ainda são poucos, em sua maioria alunos conduzidos por seus professores. Entre eles está Daniela Yáñez, aluna de um colégio público da capital chilena, que leu apenas o poema 20 de Neruda, aquele que diz "posso escrever os versos mais tristes esta noite....". Apesar disso, ela gosta das homenagens ao escritor.

"É um reconhecimento de um grande poeta nosso, porque Neruda é muito mais conhecido internacionalmente do que aqui", diz a garota. "Acho que isso se deve mais a suas tendências políticas do que a sua obra".

O pouco conh

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