Os primeiros carregamentos de ajuda humanitária chegaram nesta sexta-feira por mar e ar, a Monróvia, cuja população foi a principal vítima da guerra civil que assolou o país desde 1999.
Cerca de 500.000 pessoas vivem em "condições desesperadoras" nos arredores da capital liberiana, sem alimentos, água potável e remédios, segundo porta-vozes de diversas agências internacionais de assistência humanitária.
Uma embarcação fretada pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA), organismo subordinado à ONU, chegou ao porto de Monróvia com alimentos e medicamento, segundo emissoras de rádio de Freetown.
— Este é o primeiro de muitos outros navios que chegarão com os muito necessários carregamentos de comida e remédios para a população liberiana — disse aos jornalistas Jacques Klein, representante especial na Libéria do secretário-Geral da ONU, Kofi Annan.
Klein acrescentou que, para facilitar a reconstrução da Libéria, ele recomendará a suspensão imediata das sanções impostas pela ONU ao regime do ex-presidente Charles Taylor, que renunciou na segunda-feira passada e que passou o poder a seu vice-presidente, Moses Blah, que lidera um governo interino.
A medida, que inclui um embargo de armas, foi imposta pela ONU em 2001 para forçar Taylor a suspender sua ajuda à Frente Revolucionária Unida (FRU), um movimento rebelde da vizinha Serra Leoa, o qual adquiriu notoriedade pelas brutais multilações a que submetia a população civil.
Por outro lado, o diretor para a Libéria do PMA, Justin Bagirishya, afirmou que a agência tem como objetivo inicial distribuir assistência alimentícia de emergência a meio milhão de pessoas, mas que depois precisará de aproximadamente 9.000 toneladas mensais de alimentos até dezembro.
O porto de Monróvia e as zonas limítrofes estiveram até ontem nas mãos do grupo rebelde Liberianos Unidos pela Reconciliação e a Democracia (Lurd), que se retirou da área depois da chegada de uma força de interposição enviada pela Comunidade Econômica de Estados de África Ocidental (Cedeao).
Na terça-feira passada, os rebeldes aceitaram deixar Monróvia, entregar o porto à força de paz e recuarem 60 quilômetros a norte da capital, em cumprimento da promessa feita caso Taylor renunciasse e deixasse o país, o que aconteceu um dia antes.
A Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, em inglês) também enviou hoje seu primeiro carregamento de ajuda aos afetados pela guerra civil liberiana.
O avião charter da Usais aterrissou no aeroporto internacional Roberts, no sul de Monróvia, com cobertores e materiais de construção. Os materiais, estimados em 250.000 dólares, servirão para a construção de abrigos destinados a 15.000 pessoas, segundo fontes da embaixada americana em Monróvia.
Apesar de a Cedeao controlar o porto e o aeroporto da capital liberiana, o que, a princípio, assegura o envio ininterrupto de assistência emergencial, as agências humanitárias se disseram preocupadas com o fato de o reduzido número de soldados destacados ser inadequado para as tarefas.
As tropas nigerianas da Cedeao nada puderam fazer nesta sexta para deter dezenas de milhares de civis que, aflitos pela fome, derrubaram as barricadas erguidas sobre as pontes que unem o porto, com seus armazéns de alimentos, ao restante da capital.
Os membros do contingente de paz, que pretendiam abrir as pontes no final do dia, admitiram que não tinham condições de controlar o caos e deter a multidão que derrubou as cercas de arame e saqueou os depósitos de alimentos do PMA.
O contingente da Cedeao, que terá um total de 3.250 soldados, metade deles nigerianos, conta até agora com apenas 750 homens.
Chegam a Monróvia os primeiros carregamentos de ajuda humanitária
Sexta, 15 de Agosto de 2003 às 11:24, por: CdB