Volta e meio recebo e-mails com mensagens contra os muçulmanos. Muitos chegam do exterior, principalmemnte em inglês e em francês, mas muitos também vem do Brasil.
A tônica é a mesma: o Ocidente, com seus valores, está sendo tomado de assalto pelos muçulmanos e é preciso reagir.Em geral são uma calhorda propaganda racista e baseiam-se em fatos desmentidos pela realidade.
Há por exemplo os e-mails dando conta de que diversas cidades americanas e inglesas estão nas mãos dos muçulmanos, que se reproduzem como ratos e, graças a esta explosão populacional, tomaram o poder, elegeram os prefeitos e vereadores, nomearam o Chefe de Polícia e começaram a impor suas normas, entre elas a de que as mulheres estão obrigadas a se cobrirem da cabeça aos pés.
Na Inglaterra surgiu mesmo a notícia de que os muçulmanos obrigaram a cidade de Birmingham a virar apenas Birming, eliminando o “ham” no final.
Por que, perguntarão os leitores? Porque “ham” em inglês significa presunto e os muçulmanos não podem comer carne de porco.
(Na verdade, “ham” é abreviatura de “hamlet”, que significa povoado.)
As pessoas normais seriam levadas a crer que tais boatos são levados em tom de piada, mas a Rede Fox (do australisno Rupert Murdoch, que hoje também tem cidadania americana) os levou a sério. Fez uma reportagem sobre o assunto e, quando caiu no ridículo, foi obrigada a desmenti-la.
A islamofobia porém nem por isto esmoreceu e no Brasil parece que vem sendo insuflada por pastores protestantes, sobretudo os evangéllicos.
O caso do semanário Charlie Hebdo foi muito discutido mas, como observou o chargista americano Garry Trudeau, o que ninguém perguntou foi porque esta revista satírica resolveu tomar os muçulmanos como alvo.
Afinal, o que se espera de chargistas é a crítica aos poderosos não às classes menos favorecidas.
Não sou religioso e não me interessam as divergências entre islamistas, judeus e cristãos.
Ou melhor, interessam-me apenas no sentido de que sou contra o racismo, em todas as suas manifestações.
É falso acusar todos os muçulmanos de terroristas. Lembremos que os “guerreiros de Deus” foram apoiados e financiados pelos americanos quando os Estados Unidos queriam expulsar a então União Soviética do Afeganistão.
O feitiço depois virou contra o feiticeiro, mas o Brasil nunca teve nada com isto e seria um erro embarcarmos nesta onda de ódio racial e religioso em nosso país.
José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.
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