Os principais editores do jornal norte-americano The New York Times pediram demissão nesta quinta-feira por causa de um escândalo envolvendo reportagens fraudulentas escritas por um ex-repórter do jornal. Howell Raines, diretor-executivo, e Gerald Boyd, editor-administrativo, surpreenderam a redação do jornal ao anunciar os pedidos de demissão, contaram repórteres. O escândalo dominou o diário nas últimas semanas, tempo em que os editores rastrearam as fraudes cometidas pelo repórter Jayson Blair e investigaram o trabalho de outros jornalistas. O caso também evidenciou a insatisfação generalizada da redação do jornal com o estilo de comando de Raines, considerado hierarquista, distante e inclinado a transformar alguns repórteres em estrelas enquanto menosprezava outros. Ao anunciarem o pedido de demissão à redação do jornal, Raines parecia contrariado, enquanto Boyd tinha lágrimas nos olhos e perdeu a linha de raciocínio, contaram repórteres. Os dois editores foram duramente criticados depois da revelação de que Blair havia plagiado e inventado várias reportagens durante os quase quatro anos em que trabalhou como repórter do Times. Blair pediu demissão no começo de maio. Depois disso, Rick Bragg, uma das estrelas do jornal e vencedor do Prêmio Pulitzer de jornalismo, deixou seu cargo sob acusação de irregularidades na elaboração de reportagens. Raines e Boyd teriam ignorado as advertências de outros editores a respeito da qualidade do trabalho de Blair. Os dois também foram acusados de promover o jovem repórter negro em nome da diversidade étnica na redação, passando por cima das carências profissionais dele. Quando o escândalo estourou, no mês passado, Raines disse que não pediria demissão e que iria lutar para reconquistar a confiança da redação. Mas o caso continuou tumultuando o jornal. - Howell e Gerald apresentaram seus pedidos de demissão e eu os aceitei com tristeza com base no que acreditamos ser o melhor para o Times - afirmou em um comunicado o publisher Arthur Sulzberger Jr., presidente da The New York Times Co. Sulzberger Jr. havia dito que não buscaria a demissão de Raines, apesar do tumulto. Mas a expectativa de que alguns editores seniores pagassem pela queda no padrão no noticiário era muito grande. O escândalo Blair teve repercussões fora do jornal, tornando-se o mais recente numa longa lista de casos de abusos da imprensa nos EUA que corroeram a confiança do público na mídia. Agora, apenas 36% dos norte-americanos confiam nos jornalismo contra 54% em 1989, de acordo com uma recente pesquisa realizada pelo jornal USA Today, a CNN e o Gallup. Quando Raines e Boyd anunciaram a renúncia, houve algumas lágrimas e algumas palmas na redação. Boyd recebeu fortes aplausos de alguns editores seniores. "Todo mundo estava atônito. Esses são dois caras que colocaram toda a vida deles no jornal e eles certamente não tinham a intenção de fazer nada errado - disse um repórter. - Minha primeira reação foi a de que, talvez, isso ajudasse as pessoas a seguir em frente, mas, na verdade, nada disso é bom. Esse resultado é apenas triste - comentou o repórter. O Times disse que Joseph Lelyveld, ex-editor-executivo do jornal, retornará como editor interino. O crítico de mídia da revista New York observou, no entanto, que as renúncias não vão abafar a polêmica. - Eu acho que o foco agora será Arthur Sulzberger Jr. e, de fato, acho que isso é a raiz do que está acontecendo aqui. Tudo isso tem a ver com a sobrevivência do publisher nesse momento - disse ele.
Chefes do <i>New York Times</i> pedem demissão após escândalo
Quinta, 05 de Junho de 2003 às 13:15, por: CdB