A França vai mergulhar a União Européia numa crise se rejeitar a constituição do bloco num referendo no próximo mês, disse o presidente do Parlamento Europeu numa entrevista publicada no sábado.
Alarmado pelas pesquisas de opinião que mostram que a campanha pelo "Não" está na frente na França, Josep Borrell advertiu os franceses que se opõem ao tratado que a rejeição, em 29 de maio, terá implicações muito mais graves para o futuro da Europa do que eles imaginam. "Por toda a Europa eu encontro o sentimento de uma preocupação grave. As pessoas pensavam que o problema viria dos britânicos, mas estamos descobrindo que vêm de um país-membro fundador (da UE), sem o qual não podemos imaginar a continuidade do projeto europeu", disse Borrell ao jornal Le Monde.
"Os que apóiam o 'Não' na França pensam que a rejeição vai provocar uma crise salutar ou mesmo a salvação sem uma crise. Acho que haverá uma crise e que ela não será salutar."
Borrell, um socialista espanhol, disse que existe ansiedade na França quanto ao seu papel na Europa e que o país ficou para trás na integração européia.
Os eleitores franceses sentem que não foram adequadamente consultados quanto à ampliação da UE, de 15 para 25 membros, em maio de 2004, e há uma certa "eurofadiga" na França.
"Na minha opinião, existe um mal-estar francês em relação à Europa que está estourando hoje. A constituição é o catalisador", afirmou.
As últimas 10 pesquisas de opinião mostram o "Não" à frente, mas muita gente ainda não decidiu como votar.
A constituição exige a aprovação de todos os 25 países-membros para entrar em vigor. O referendo na França --e, posteriormente, no Reino Unido-- representará um obstáculo muito maior à Carta do que o da Espanha, em que o tratado foi aprovado, em fevereiro.
As pesquisas indicam que alguns eleitores querem se opor à constituição simplesmente para manifestar o descontentamento com as políticas econômicas do presidente Jacques Chirac e seu governo. Borrell disse que essa não é a forma de se manifestar sobre a constituição, cujo objetivo é facilitar a tomada de decisões da UE, que agora tem mais membros.
"Os senhores votarão a favor ou contra Chirac na eleição presidencial (em 2007). Não devem fazer a constituição européia pagar as dívidas de Chirac para com a sociedade francesa", afirmou.