Rio de Janeiro, 25 de Abril de 2026

Chávez e a Embraer

Por Luiz Augusto Gollo - Os passos da Venezuela estão vinculados à política de confrontação com os Estados Unidos. O possível êxito do Itamaraty na venda de aviões da Embraer pode representar passo mais importante do que sugere uma avaliação ligeira. (Leia Mais)

Terça, 17 de Janeiro de 2006 às 20:34, por: CdB

O obstáculo norte-americano à venda de aviões da Embraer à Venezuela não é a primeira nem muito provavelmente será a última intervenção indevida neste item tão delicado da pauta de exportações brasileiras. Em outubro de 2002, o general James Hill, então chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, vetou a compra de 40 aviões Emb-314 pelo governo colombiano, sob o pretexto de que não eram adequados ao combate à guerrilha na selva e nas montanhas, segundo parâmetros do Plano Colômbia, firmado anos antes pelos presidentes Bill Clinton e Álvaro Uribe Vélez para combater a guerrilha e o narcotráfico no país. Mesmo sabendo da consulta formal à empresa brasileira, Hill despachou memorando ao comandante das forças militares colombianas à época, general Jorge Enrique Mora Rangel, "aconselhando-o" a desistir do negócio. Alguns anos depois, a Colômbia comprou 25 unidades do modelo Super Tucano, com a anuência norte-americana, é claro.

A questão principal embutida nos negócios externos da Embraer reside no mercado internacional. A fábrica brasileira conquistou reputação e respeito a ponto de enfrentar grandes concorrentes mundiais, como a canadense Bombardier, na preferência dos clientes norte-americanos, europeus e até chineses. O argumento do general James Hill era frágil, porque a empresa brasileira produz aeronaves de médio porte próprias às condições do mercado brasileiro e, por extensão, sul-americano. Agora, o pretexto formal é que ela repassaria à Venezuela tecnologia contratada nos Estados Unidos, o que eriça os pêlos dos militares de Bush. A Embraer deixará de faturar com o negócio avaliado em meio bilhão de dólares - a não ser que conte com o apoio firme e decidido do governo brasileiro para reverter a situação.

O Itamaraty, na realidade, defende os interesses da empresa brasileira desde o governo Fernando Henrique Cardoso, quando ela sofreu pressões contra o fornecimento a uma empresa norte-americana de aviação civil de médio alcance. A Bombardier, na época, mobilizou o governo do Canadá, apelou para as condições privilegiadas de comércio no âmbito do Nafta (o acordo de livre comércio entre México, EUA e Canadá) e sensibilizou autoridades civis e militares dos EUA na defesa de um mercado que considera cativo (afinal, a empresa canadense mantém prudente distância dos países ao sul do continente, justamente para evitar problemas com o poderoso vizinho lá em cima). Ocorre que o mercado globalizado expandiu as oportunidades para a competente Embraer.

Por outro lado, o componente político e ideológico da transação que ocupa o chanceler Celso Amorim no momento também não é novidade. Há menos de dois meses, o governo Bush pressionou a Espanha para romper o contrato recém-firmado pela empresa EADS-Casa com a Venezuela para o fornecimento de 12 aviões de transporte militar também com tecnologia norte-americana, além de oito barcos de patrulha, num total aproximado de US$ 2 bilhões. Aliada dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha na invasão do Iraque, em março de 2003, a Espanha ignorou a pressão e a fábrica manteve o negócio, mesmo ante a ameaça de ter de trocar a tecnologia atual por outra, francesa. Inclusive porque o valor contratado não é nada desprezível em nenhuma balança comercial.

É mais ou menos no mesmo contexto que a diplomacia brasileira vem trabalhando para convencer o governo Bush de que a Venezuela não está sujeita a qualquer sanção ou bloqueio e que pode perfeitamente substituir a Embraer por empresas do outro lado do mundo, onde o Estado controla esse tipo de indústria, mesmo depois do fim do bloco soviético. Foi, aliás, o que o presidente Hugo Chávez deixou patente, dias atrás, ao denunciar o boicote de assistência técnica aos caças F-16 comprados pela Venezuela nos Estados Unidos há muitos anos: "Se temos de substituir essa frota de F-16 por uma frota moderna de aviões MiG (de fabricação russa), nós o faremos", ameaçou, conforme registro da agência France Presse reproduzido nos jornais brasil

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