Presidente da Venezuela, Hugo Chávez reafirmou nesta quinta-feira o seu apoio à nacionalização dos hidrocarbonetos decretada na segunda-feira na Bolívia e se disse confiante de que o governo do presidente Evo Morales vai conseguir novos acordos com as empresas multinacionais. Chávez foi recebido com honras por Morales no aeroporto da cidade de El Alto, vizinha a capital La Paz, para uma visita noturna antes de viajarem juntos, na manhã desta quinta, para um encontro com o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
- A voz do povo é a voz de Deus. Apoiamos a Bolívia nesta reivindicação que aponta na mesma direção da Venezuela, nós temos recuperado também o controle (...) em um processo longo e difícil, que nos custou inclusive um golpe - disse Chávez a jornalistas ao justificar a nacionalização decretada por Morales após um referendo em 2004 e a aprovação de uma lei de hidrocarbonetos em 2005.
Chávez não escondeu seu propósito de estreitar ainda mais sua relação com o presidente indígena boliviano e disse que pode-se esperar que, nos próximos anos, "trilhemos esse caminho entre La Paz e Caracas, construindo uma integração".
O governante venezuelano disse que a nacionalização boliviana gerou "algum impacto" e "algumas especulações" na América do Sul, mas que ela não seria "tão dramática" quanto a que ele promoveu em seu país.
- Estou seguro que, no caso da Bolívia (...) tudo sairá bem, que com a boa vontade do presidente Evo Morales se chegarão a acordos com as empresas multinacionais da América do Sul e da Europa - disse Chávez horas depois de a Petrobras anunciar que congelará seus investimentos futuros na Bolívia. Chávez confirmou que a decisão boliviana e a construção de um mega gasoduto na região serão os temas do encontro entre os quatro presidentes na cidade argentina de Puerto Iguazú.
Ele acrescentou que a reunião foi acertada na terça-feira a partir do critério comum de que, ante a nacionalização boliviana, "nada melhor do que conversar, porque somos todos irmãos, amigos, companheiros".
Sobre o gasoduto, o presidente venezuelano disse que "sem a Bolívia, ele não tem sentido" e que o país governado por Morales deve se incorporar ao projeto ainda na sua fase inicial de definição.
Tensão
Chávez ratificou, ainda na manhã desta quinta-feira, em La Paz, que a Venezuela vai retirar seu embaixador no Peru, em meio a polêmica com o governo de Lima.
- Não podemos fazer nada além de retirar nosso embaixador. Ordenei a saída do nosso diplomata (no Peru), com muita dor. Isto não deveria ter chegado a este ponto porque foi uma agressão gratuita feita por um candidato de lá (Peru) que respondi, tenho este direito, mas o governo peruano entrou na questão e agora vou retirar o embaixador - disse Chávez em La Paz.
O presidente peruano, Alejandro Toledo, denunciou na Organização dos Estados Americanos a intromissão de Chávez nas eleições peruanas. A polêmica começou na semana passada, quando Chávez disse que a Comunidade Andina das Nações (CAN) estava ferida de morte pela atitude de Peru e Colômbia de firmar tratados bilaterais de livre comércio com os Estados Unidos.
Em plena disputa eleitoral no Peru, o candidato social democrata Alan García chamou Chávez de "sem-vergonha" por criticar os tratados bilaterais com os Estados Unidos e ao mesmo tempo vender anualmente 80 bilhões de dólares em petróleo para os americanos. Chávez reagiu chamando García de "corrupto e ladrão" e disse que ele e Toledo "são jacarés do mesmo poço".
Nesta quarta-feira, Chávez negou que tenha manifestado apoio ao candidato nacionalista peruano Ollanta Humana, que venceu o primeiro turno e agora enfrentará Alan García.
- Ollanta é bastante inteligente (..) é um nacionalista e está casado com a causa dos nossos povos e do povo peruano - concluiu Chávez.