Rio de Janeiro, 28 de Outubro de 2026

Chanceler anuncia saída do governo suíço

Quarta, 07 de Setembro de 2011 às 01:15, por: CdB

A chanceler suíça Micheline Calmy-Rey, anunciou na quarta-feira que irá se retirar do governo até o final do ano. Durante nove anos a frente do ministério das Relações Exteriores, a política genebrina se engajou fortemente pela promoção da "neutralidade" ativa na política externa.

Seu estilo e suas iniciativas provocaram muitas vezes fortes críticas, mas a diplomacia suíça ganhou visibilidade na cena internacional.

Um retorno a um momento importante da sua vida, em quatro de dezembro de 2002: nesse dia, Micheline Calmy-Rey, foi eleita membro do gabinete de sete ministros que governam a Suíça com 131 votos. Era uma mulher praticamente desconhecida em nível nacional, que se apresentava frente aos parlamentares para prestar juramento. Nascida e crescida no cantão do Valais (sudoeste), a membro do Partido Socialista construiu sua carreira política no cantão de Genebra: parlamentar cantonal (estado), depois presidente do Partido Socialista em Genebra e, finalmente, membro do governo cantonal responsável pela pasta de Finanças.
 
Assim os eleitores suíços descobrem uma nova silhueta na política federal: roupas elegantes e austeras, praticamente sempre pretas ou brancas, mas vez ou outra com tons vermelhos. Os cabelos com uma franja tão larga como seu sorriso, com algumas mechas louras ou brancas: um novo visual no prédio governamental em Berna. A nova ministra é frágil, mas enérgica e decidida.
 
"Trago comigo um certo caráter que vem da minha família, no Valais. E trago também minha experiência genebrina, impregnada de uma abertura em relação ao mundo", declarou pouco depois da eleição ao governo federal. Essas serão duas particularidades que irão marcar todo o tempo passado na direção do ministério das Relações Exteriores (DFAE, na sigla em francês): a vontade de abertura frente ao mundo e o caráter do Valais, tenaz e combativo, que irá ajudá-la a cumprir sua missão.

Neutralidade ativa 

Porém é certo que seu caráter não é fácil. A primeira mulher chefiando o DFAE choca-se desde o início com o corpo diplomático, habituado há muitos anos à condução plácida do predecessor Joseph Deiss. Exigente, centralizadora e muitas vezes impulsiva, a número um da diplomacia não utiliza sempre um tom diplomático com seus colaboradores. Alguns se lembram do seu apelido - "Cruela" - dado a ela no tempo em que era responsável pela pasta de Finanças no cantão de Genebra.
 
Seu papel não é, portanto, de se fazer querida dentro do ministério, mas de dar uma visibilidade e fazer a Suíça ser respeitada no exterior. Dinâmica e apressada, Micheline Calmy-Rey multiplica as iniciativas para reativar a política da "neutralidade ativa" lançada pelo governo federal no início da Guerra Fria. Dessa forma, em 20 de maio de 2003, ela se torna a primeira ministra estrangeira a atravessar a pé a linha de demarcação entre as duas Coreias e visita Pyongyang para discutir com dirigentes norte-coreanos.
 
Ainda em 2003, ela apoia ativamente a chamada "Iniciativa de Genebra", um plano de paz oficioso que visa renovar o diálogo entre israelenses e palestino. Durante os anos seguintes, ela negocia em prol da criação do Conselho dos Direitos Humanos, concebido como o instrumento mais eficaz para assegurar o respeito dos direitos humanos.
 
Em nome das Convenções de Genebra, ela condena com veemência, em 2006, os bombardeios israelenses no Líbano, que ela julga "desproporcionais", e exige o respeito do direito humanitário. Dessa forma ele atrai não apenas críticas da parte de Israel, mas também felicitações na Suíça e no exterior. Trata-se de um novo tom para uma diplomacia suíça até então habituada a manter a discrição para evitar conflitos.

Ano de problemas 

Mantendo-se como única mulher no poder executivo durante mais de dois anos, as pesquisas de opinião a colocavam regularmente na liderança da classificação dos políticos mais apreciados. Essa popularidade chegou ao seu ápice em 2007, quando assume pela primeira vez a presidência da Confederação Helvética (cargo exercido durante um ano por ministros federais em sistema de rotação). Ela organiza dez "encontros com a população" que atraem centenas de pessoas, canta uma canção folclórica na televisão suíça e pronuncia um discurso patriótico no dia nacional da Suíça, em 1° de agosto. 
 
Micheline Calmy-Rey se preocupa com a sua imagem, talvez até em demasia segundo seus adversários, que a acusam de promover a "diplomacia pública", sobretudo para se destacar. O reconhecimento rápido da independência do Kosovo, julgada precipitada, uma visita sob véu em Teerã, as tentativas fracassadas de mediação na Colômbia, a gestão da crise na Líbia: 2008 constitui no ano mais difícil de Micheline Calmy-Rey, mas também para toda a política estrangeira da Suíça, confrontada a uma verdadeira ofensiva internacional contra o sigilo bancário.
 
O que irrita, sobretudo para muitos políticos, é o "estilo Calmy-Rey", ou com outras palavras, seu caráter. Para seus detratores, ela é tenaz até a obstinação, mesmo quando a causa já está perdida. O Partido do Povo Suíço (SVP, direita conservadora) e o Partido Democrata-Cristão (PDC, centro-direita) convidam a socialista a abandonar seu ministério: segundo eles, ela só teria acumulado derrotas, da Iniciativa de Genebra até à crise líbia, atraído antipatia para a Suíça, de Israel até os Estados Unidos e teria negligenciado as relações com os parceiros europeus.

Política exterior pouco visível 

Combativa, a responsável pela diplomacia resiste aos ataques e se aproveita do fato que outros ministros se encontram na mira dos políticos e das mídias, começando por Samuel Schmid e Hans-Rudolf Merz. Mas Micheline Calmy-Rey continua irritando: em dezembro de 2010, ela é reeleita presidente da Confederação Helvética com apenas 106 votos, o pior resultado desde 1919...
 
A ministra das Relações Exteriores também perde o seu apelo popular. Durante seu segundo ano presidencial, ela figura ainda na penúltima posição no ranking dos ministros mais populares, à frente apenas do ministro da Defesa, Ueli Maurer. Mas seu objetivo não é de se fazer querida, nem do Parlamento, nem da população, mas de defender os interesses do país no exterior.
 
No entanto nessa área, muitas pessoas, incluindo também alguns adversários, reconhecem seu engajamento constante durante os nove anos passados no governo em favor dos direitos humanos e das Convenções de Genebra: seja relançando a tradição de mediação de conflitos, que havia se enfraquecido após o fim da Guerra Fria; seja assumindo um papel mais ativo para a diplomacia suíça nas organizações internacionais. Somando: ela lutou para tornar a pequena Suíça mais visível no mundo. 

Armando Mombelli, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele

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