Domingo, 07 de Setembro de 2014 às 07:48, por: CdB
Mariupol fica na fronteira da Ucrânia com a Rússia
Firmado na sexta-feira, o cessar-fogo na Ucrânia já dá sinais de que pode fracassar. Neste domingo, houve um bombardeio perto do aeroporto de Donestsk. A trégua havia durado a maior parte do sábado, mas no final do dia bombardeios em Mariupol deixaram uma mulher morta. Ela é a primeira vítima desde o cessar-fogo acertado na sexta-feira, segundo a prefeitura da cidade portuária.
"Uma mulher foi morta e três pessoas ficaram feridas em Mariupol", disse o comunicado da prefeitura, que denunciou que os rebeldes pró-russos dispararam contra um posto de controle na periferia da cidade e destruíram um posto de gasolina.
Nesta manhã, a situação em Mariupol já estava "calma e sob controle", de acordo com a prefeitura. A cidade abriga um porto estratégico, às margens do Mar de Azov. Seu controle representaria a ligação da fronteira russa à Península da Crimeia, anexada pela Rússia em março. Por isso, um ataque dos rebeldes a Mariupol já era temido há vários dias.
Kiev e os rebeldes firmaram na sexta-feira em Minsk, capital da Bielorrúsia, um cessar-fogo ao final de negociações entre o chamado grupo de contato – que reúne representantes da Rússia, da Ucrânia e da Organização para Segurança e Cooperação na Europa – e os rebeldes separatistas ucranianos.
Mas, se o acordo era tão frágil, por que Rússia e Ucrânia chegaram a um entendimento?
Bridget Kendall, correspondente para assuntos diplomáticos da agência britânica de notícias BBC, tem a versão dele sobre o que está por trás do cessar-fogo firmado entre representantes da Ucrânia, da Rússia, rebeldes pró-Rússia e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).
Além do objetivo mútuo de fazer todo o possível para parar o derramamento de sangue e o sofrimento, as opções do presidente ucraniano Poroshenko eram limitadas. Ele percebeu que não ia ser tão fácil travar uma campanha para esmagar os rebeldes no leste do país e seguir em frente no objetivo de tirar a Ucrânia do caos econômico em que o país encontra-se.
Uma recente injeção de tropas e armamento pesado -presumivelmente da Rússia- fez com que os rebeldes pró-Rússia abrissem novas frentes e forçou as tropas ucranianas a um recuo abrupto e humilhante. Bombardeios ocorreram no sábado e no domingo
A reação de pânico em Kiev ficou clara. Nas palavras do presidente Poroshenko, parecia uma "agressão russa direta e aberta". Na reunião há duas semanas em Minsk entre Putin e Poroshenko, foi sinalizado que à Ucrânia não seria permitido ganhar a guerra no leste.
O governo ucraniano tem em mente que a Rússia sempre pode montar uma contra-ofensiva, ou apenas manter a região constantemente instável, dificultando os planos de Poroshenko para as eleições parlamentares no próximo mês.
Amigos cautelosos
Além disso, o presidente Poroshenko deve ter saído do encontro com poucas ilusões sobre a ajuda militar do Ocidente. Depois do último encontro da OTAN ficou claro que, quando se trata da Rússia, os países ocidentais são pragmaticamente cautelosos.
Sem dúvida o Ocidente está disposto a apoiar Kiev política e economicamente, e a prestar assessoria, capacitação e assistência militar. Mas a Ucrânia não faz parte da OTAN e o Ocidente não está preparado para ir à guerra com a Rússia por ela. Os líderes da França e da Alemanha têm dito repetidamente nas últimas semanas que o conflito será resolvido na Ucrânia com um cessar-fogo.
As opções russas
Mas se a Ucrânia ficou com poucas opções, o que acontece com a Rússia? Por que o presidente Vladimir Putin aceitou parar agora?
Ele poderia ter pressionado - como esperavam os nacionalistas conservadores russos - para anexar o leste da Ucrânia ao território russo. Ou declarar um novo território protegido em Novorossiya (Nova Rússia, como o império russo nos séculos XVIII e XIX chamava uma parte da Ucrânia) para criar uma "ponte" de terra para a Crimeia. O fato é que Putin teve ampla oportunidade de assumir o controle do leste da Ucrânia, se ele quisesse fazer. Mas não está claro que vantagem ele tiraria do território.
A área é pobre, muitas indústrias perderam seu poder, a população local está traumatizada e dividida. E seria uma luta sangrenta e confusa envolvendo um grande número de tropas russas e, por isso, não se sabe quantas baixas russas haveria. Pode ser um risco que Putin não está disposto a assumir.
Talvez seja melhor tentar parar o conflito agora, quando os rebeldes têm uma vantagem militar, quando o governo ucraniano parece vulnerável, na esperança de um acordo de paz, para ter mais chances de conseguir um acordo que atenda as principais reivindicações da Rússia.
Sanções ocidentais também podem desempenhar um papel importante na vontade do Kremlin para apoiar a trégua, até porque há relatos de que os preços estão subindo na Rússia, especialmente de alimentos, o que pode afetar as pessoas mais pobres naquele país. No final, é provável que a pressão interna seja, para ambos os presidentes, um fator importante na sua tomada de decisão sobre o cessar-fogo e o interesse de alcançar a paz.
Crimes de guerra
Outro fato que desautorizou a pressão ucraniana contra a Rússia foi a divulgação do relatório da Anistia Internacional (AI), organização internacional de defesa dos direitos humanos sediada em Londres, que acusou as partes envolvidas no conflito em curso no sudeste da Ucrânia, de prática de crimes de guerra, como informa a agência francesa de notícias France-Presse (AFP), citando um relatório elaborado pela AI.
De acordo com o relatório, defensores dos direitos humanos interrogaram habitantes locais tornados reféns do conflito no sudeste do país. Segundo os civis por eles contatados, as forças armadas da Ucrânia bombardearam seus bairros. “Seus testemunhos nos levam a afirmar que os ataques eram efetuados indiscriminadamente, sendo por isso equiparáveis a crimes de guerra”, cita a AFP o relatório da AI.
Também conforme dados em poder dos defensores dos direitos humanos, os civis interrogados referiram sequestros, torturas e assassinatos realizados pela parte adversa e espancamentos e de sequestros praticados “pelos batalhões de voluntários operando conjuntamente com as forças regulares ucranianas”. O responsável da Anistia International considera necessário que se proceda a uma investigação desses casos.
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.