Cerco a Temer se fecha com novas delações de empreiteiros
Após ter seu nome citado em gravações clandestinas de Machado, Temer já estaria entre os nomes apontados por outros delatores que negociaram a redução de penas
Após ter seu nome citado em gravações clandestinas de Machado, Temer já estaria entre os nomes apontados por outros delatores que negociaram a redução de penas
Por Redação - de Brasília
Agrava-se, em juízo, o risco de o presidente de facto, Michel Temer, ser afastado do cargo, compulsoriamente, e ter a prisão decretada por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), conforme noticiou o Correio do Brasil na edição desta quinta-feira, diante de seu possível envolvimento na quadrilha que causou um prejuízo ainda não determinado junto aos cofres da estatal brasileira do petróleo, já contabilizado na casa dos bilhões de reais. Citado na delação premiada do ex-presidente da Transpetro (braço operacional da Petrobras) Sérgio Machado, o líder golpista aparece em novos depoimentos prestados no âmbito da Operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), segundo afirmaram fontes ligadas ao processo à reportagem do CdB.
Renan, presidente do Senado, e Temer conversam durante a convenção do PMDB
Após ter seu nome citado em gravações clandestinas de Machado, Temer já estaria entre os nomes apontados por outros delatores que negociaram a redução das penas previstas em Lei, agora também junto à empreiteira Odebrecht. Delegados da PF e investigadores apuram de que maneira o atual inquilino do Palácio do Planalto situa-se entre os acusados de pertencer à quadrilha que assaltou os cofres públicos. Ao longo das últimas campanhas eleitorais, a empreiteira forneceu recursos ilícitos ao PMDB, entre elas a campanha de 2014, na qual Temer participou como candidato a vice-presidente na chapa da presidenta Dilma Rousseff. As propinas obtidas e divididas no partido, segundo aquela fonte, chegam à casa dos R$ 50 milhões.
Temer na mira
Parte das provas buscadas contra os políticos nomeados, um a um, nas confissões proferidas em juízo, tanto junto ao STF quanto à Vara Federal de Curitiba, sob a titularidade do juiz Sergio Moro, foi encontrada na etapa de investigações batizada de Dona Xepa, que localizou um esquema estruturado de pagamento de vantagens indevidas pelo Grupo Odebrecht. As apurações mostraram que, até novembro de 2015, houve repasses de dinheiro ilícito, realizados por executivos da empreiteira.
Aquela fase buscava identificar os beneficiados diretos de um esquema paralelo de pagamentos da Odebrecht, no qual a propina era repartida de forma estruturada, administrativamente, por um departamento específico no Setor de Operações da empresa. Os policiais federais chegaram até um sistema informatizado específico, que processava os pagamentos de propinas e transferia informações secretas entre os executivos e funcionários encarregados de operacionalizar o esquema criminoso. Nos registros encontrados pela PF, os envolvidos tinham a identidade preservada em codinomes.
Entre as anotações encontradas, o nome de Michel Temer aparece sob as iniciais MT, enquanto o presidente afastado da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi registrado como E.Cunha. Em um dos documentos resgatados pela PF, o executivo Marcelo Odebrecht, apontado como o comandante do esquema de propinas no clube das empreiteiras que integravam o cartel das obras públicas, mostra-se determinado a desaparecer com as anotações de pagamentos de propinas capazes de ligar os nomes de Temer e Cunha, entre outros, ao da companhia: "Higienizar apetrechos MF e RA. Vazar doação de campanha. Nova Nota de minha de mídia; GA, FP, AM, MT, LULA, E.Cunha”.
Propinas e partidos
Na nova fase de oitivas aos executivos da Odebrecht, perto de 50 deles teriam proposto a delação de seus cúmplices no esquema de “financiamento ilícito e ilegal”, segundo os autos aos quais a reportagem do CdB teve acesso. A empreiteira já havia revelado o repasse de propinas em nota pública, de março deste ano, ao anunciar sua “colaboração definitiva” com a Justiça.
A delação premiada destes executivos estremece os meandros políticos de Brasília que, dentro de mais algumas semanas assistirá à votação, no Plenário do Senado, do processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff. Nestes depoimentos, que já resultaram na demissão de três ministros do governo golpista, estão envolvidos políticos do PMDB, PSDB, PT, PP e DEM, entre outros. Também foram citados 13 governadores e ex-governadores e perto de 100 deputados e senadores beneficiados com recursos ilícitos, obtidos em contratos superfaturados com a Petrobras, entre outras fontes do governo. Para maquiar o repasse de propinas, muitos destes suspeitos receberam doações declaradas à Justiça Eleitoral, enquanto outros preferiram manter o dinheiro sujo longe da fiscalização pública, no popular ‘Caixa 2’.
Conforme garante aquela fonte, ouvida pela reportagem do CdB, “ao definir os detalhes de como foram distribuídos os mais de R$ 50 milhões destinados ao PMDB, nas últimas eleições, não sobrará um só dirigente do partido que não tenha se beneficiado daqueles contratos fraudulentos”.
— Nem mesmo a cúpula do governo — acrescenta.
Temer já está citado em dois outros compêndios da Lava Jato. No primeiro, aparece no grampo eletrônico, realizado com autorização judicial, em que o executivo Léo Pinheiro, da empreiteira OAS, recebe uma ligação de Eduardo Cunha, que cobrava um pagamento de R$ 5 milhões para o hoje presidente de facto. Pinheiro explica que a propina, naquele caso, referia-se à concessão do aeroporto de Guarulhos para a OAS. Estes dados estão de posse do ministro do STF Teori Zavascki, e foram aplicados na fundamentação das ações realizadas na Operação Catilinárias, em dezembro último. De acordo com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no processo em curso: “Eduardo Cunha cobrou Léo Pinheiro por ter pago, de uma vez, para Michel Temer, a quantia de R$ 5 milhões, tendo adiado os compromissos com a 'turma". Temer tentou se explicar e disse que se tratava de uma doação legal de R$ 5 milhões da OAS ao PMDB.
Em outra citação ao atual governante, desta vez pelo executivo da construtora Engevix, José Antônio Sobrinho declara ter pago R$ 1 milhão para a campanha de Temer em 2014. A delação premiada do ex-senador Delcídio do Amaral também menciona o vice-presidente como responsável pela indicação de diretores da Petrobras, todos acusados de corrupção.
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.