Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

Censura cala mídia na Tunísia, sede de cúpula da informação

A política de censura da Tunísia é tão rigorosa que um repórter pode ter problemas só por escrever sobre o preço da cebola, numa estratégia que conseguiu acabar com a imprensa crítica, afirma o sindicato dos jornalistas do país. O governo da Tunísia, localizada no norte da África, está sendo pressionado por entidades nacionais e estrangeiras de defesa dos direitos humanos para amenizar o controle sobre a imprensa e comprovar que o país merece ser a sede da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação. (Leia Mais)

Segunda, 02 de Maio de 2005 às 13:21, por: CdB

A política de censura da Tunísia é tão rigorosa que um repórter pode ter problemas só por escrever sobre o preço da cebola, numa estratégia que conseguiu acabar com a imprensa crítica, afirma o sindicato dos jornalistas do país.

O governo da Tunísia, localizada no norte da África, às margens do Mediterrâneo, está sendo pressionado por entidades nacionais e estrangeiras de defesa dos direitos humanos para amenizar o controle sobre a imprensa e comprovar que o país merece ser a sede da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, patrocinada pela ONU e programada para acontecer em novembro.

A Tunísia vem sendo duramente criticada por amordaçar a imprensa, censurar o uso da Internet, espancar e prender jornalistas e limitar a vida política.

- Por que eles não prenderam nenhum jornalista nos últimos quatro anos? O motivo é simples: nenhum jornalista se atreve a escrever, e os jornais não se atrevem a publicar artigos que possam ofender as autoridades - disse à Reuters Lotfi Hajji, presidente do Sindicato Tunisiano dos Jornalistas.

Nos anos de 1990, vários jornalistas foram presos no país, e Hamadi Jebaili, editor do Al Fajr, de tendência islamista, está detido desde 1991. Abdallah Zouari, também do Fajr, foi deportado para seu vilarejo ao ser libertado, em 2002, depois de 11 anos de prisão. O governo insiste que os dois foram presos por "terrorismo islâmico".

Na semana passada, um tribunal condenou um jornalista a 3,5 anos de prisão por publicar artigos críticos ao governo na Internet.

Uma fonte importante do governo minimizou as críticas e afirmou que "a imprensa é livre na Tunísia, e não há censura".

- Na realidade, 90 por cento dos 245 jornais e revistas da Tunísia são privados e editados com independência - disse a fonte à Reuters.

Os críticos afirmam que o preço pela prosperidade econômica e social do país é um Estado policial, comandado pelo presidente Zine al-Abidine Ben Ali, em que poucos ousam se manifestar.

- O problema dos jornalistas é que não sabemos quais são os limites da censura, já que a lista de assuntos proibidos continua aumentando - disse Hajji na noite de domingo.

- A forte censura chegou a um nível que causa confusão. Os jornalistas se tornaram motoristas sem um código de trânsito. Eles seguem em frente, mas não sabem o que vai acontecer com eles pelo caminho - afirmou.

O Intercâmbio Internacional de Liberdade de Expressão (Ifex) afirmou num relatório recente que a Tunísia censura jornais, bloqueia páginas da Internet, prende pessoas por suas opiniões ou atividades na mídia e utiliza a tortura.

A censura não poupa reportagens sobre assuntos corriqueiros como o preço da cebola ou enchentes. Matérias ligeiramente críticas ou negativas já foram proibidas, disse Hajji.

- Jornalistas foram punidos por artigos entregues a seus editores e não publicados. Foram punidos por se atrever a pensar a escrever sobre tais assuntos - disse ele.

Os editores filtram as reportagens com frequência para garantir que elas continuem favoráveis às autoridades. O governo diz que a Tunísia, visitada por milhões de turistas europeus todos os anos, está avançando para uma política mais multipartidária, para uma maior liberdade de expressão e para o respeito aos direitos humanos.

Mas, rebate Hajji:

- Sua política nos últimos dez anos transformou a mídia num deserto silencioso.

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