Quarta, 17 de Agosto de 2011
Uma apreciação menos maniqueísta da transição do governoLula para o governo Dilma pode comprovar que ainda não ocorreu uma reversãocompleta do caminho trilhado pelos governos neoliberais, mas que ocorreramalgumas mudanças importantes.
Por exemplo, passamos da estagnação para o crescimentoeconômico. Saímos da privatização dos ativos das empresas públicas para aconsolidação das empresas estatais, que sobraram da privataria neoliberal, epara as parcerias público-privadas, com concessões ao setor privado.
O desmantelamento do planejamento estatal foi deixado delado e há um processo, ainda não consolidado, de retomada do planejamentomacroeconômico e macro-social. O combate aos miseráveis transformou-se emcombate à miséria e em esforço para elevar o poder de compra das camadas debaixa renda.
Aumentaram as taxas de emprego e tiveram início ações maisconsistentes de apoio às micros e pequenas empresas. As estruturas educacionaise de saúde estão sendo reorganizadas, embora não na velocidade que seriadesejável. E a construção de moradias tomou vulto.
Também deve ser destacado o esforço para introduzir no paísuma democracia relativamente participativa, paralelamente à ampliação dademocracia liberal formal. O mesmo pode ser dito em relação ao abandono daspolíticas de subordinação aos ditames das potências imperiais e suasubstituição por políticas soberanas de integração sul-americana e diversificaçãodas parcerias internacionais.
No entanto, embora tudo isso seja positivo e necessário, nãoé suficiente diante das demandas da sociedade brasileira e das nuvenscarregadas que estão se armando nos EUA e na Europa. A sociedade brasileiraprecisa de um projeto democrático popular. Este, no âmbito econômico, deveapontar, de modo mais consistente, para maior participação das empresasestatais, em especial nos setores estratégicos, e deve estimular a ampliaçãomassiva do capitalismo democrático, isto é, das micros e pequenas empresasprivadas, urbanas e rurais.
O que não significa abandonar a política de reforço dasempresas privadas, para que adensem as cadeias produtivas industriais eagrícolas, e desenvolvam mais rapidamente as forças produtivas do país, emboraseja necessária uma ação permanente do Estado para evitar que elas tornem omercado mais caótico do que normalmente é.
Tudo isso implica em adotar políticas macroeconômicascoerentes, que tratem não só de manter a inflação baixa, mas também de praticarjuros favoráveis para aquele desenvolvimento, e tratem o câmbio comoinstrumento de política de desenvolvimento industrial. Deixar juros e câmbio àmercê das forças desbragadas do mercado é o mesmo que atravessar estradas dealta velocidade fora das passarelas.
Se o governo Dilma demorar demais na configuração de umprojeto desse tipo, que possa unificar mais firmemente as classes e setoressociais contraditórios que a levaram ao governo, a tendência pode ser umprocesso de desgaste constante em torno de problemas de corrupção, reais oufictícios, ou em torno de divergências de porte menor.
Afinal, não são poucos os que consideram crescimentoeconômico com distribuição de renda insuficiente, mesmo para um governo decoalizão dirigido pela esquerda.
A presidenta tem razão em achar que isso não depende apenasda vontade do governo ou dos partidos de sua base. Realmente, para construiruma unidade de forças em torno de um projeto nacional, democrático e popular,será necessário que os partidos de esquerda botem mãos à obra, em conjunto,para elaborá-lo e colocá-lo em discussão na sociedade, mudando a pauta negativaque a direita tenta impor a todo custo.
Isso é tanto mais necessário neste momento em que asperspectivas de solução da crise econômica européia e norte-americana estãoafundando no lodaçal perigoso de propostas políticas de direita e deultradireita. Os ricos se negam a pagar a conta de seus lucros abusivos e estãoapelando para possíveis saídas militares. Como estas, na atualidade, parecem agravar,cada vez mais, justamente a situação dos que as praticam, os cenários tendem aser crescentemente incertos.
Portanto, sem um projeto unificador, o governo Dilma podeser apanhado no contrapé.