Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Cem milhões de mexicanos suspeitos

Por Emir Sader - Com a complacência do governo mexicano, os cem milhões de habitantes do país se tornaram suspeitos de terrorismo diante do governo norte-americano. (Leia Mais)

Sexta, 09 de Janeiro de 2004 às 06:40, por: CdB

Os cem milhões de habitantes do México - além dos que vivem legal ou clandestinamente nos Estados Unidos - tornaram-se suspeitos de terrorismo diante do governo norte-americano - com a complacência do governo mexicano - até prova em contrário. Agentes de segurança norte-americanos atuam impunemente no aeroporto internacional da capital do México, com a finalidade de "evitar que supostos terroristas abordem vôos com destino ao país vizinho". Atitude que vergonhosamente atenta contra a soberania do México é realizada com o beneplácito das autoridades do governo de Vicente Fox, enquanto uma delas afirma que estão realizando investigações a partir da suspeita - certamente levantada por Washington - de que se estaria preparando um atentado terrorista em algum terminal aéreo do México.

Desta forma, como continuação da renúncia à soberania nacional que representou o acordo de comércio da América do Norte - Nafta - que, ao completar dez anos de sua assinatura, exibe um país mais pobre, que serve como mercado de mão-de-obra barata para os capitais norte-americanos, às expensas da situação social do conjunto do país, renuncia-se também à mínima dignidade, deixando que agentes do governo Bush estendam sua histérica "guerra infinita contra o terror" no coração do território mexicano.

Como observam pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), essa atitude do governo de Vicente Fox poderia se constituir num delito, pelo qual seriam responsáveis os funcionários que autorizaram e toleraram essas práticas atentatórias contra o mínimo controle do Estado mexicano sobre seu território. A vigilância desses agentes, além disso, se concentra nos viajantes mexicanos e nas companhias aéreas mexicanas, deixando de lado as companhias norte-americanas, exibindo assim claramente o caráter discriminatório da ação desses agentes, com a conivência do governo do México, que permite que se pratique esse tipo de discriminação no seu território contra seus próprios cidadãos.

Por isso, como bem observa o editorial de 8 de janeiro do diário mexicano La Jornada, menos do que buscar pistas de eventuais atos terroristas, se trata de "criminalizar os mexicanos, de submeter o México à política de segurança do império do norte e de submergir a população na humilhação e no temor". Essa atitude revela a desconfiança do governo em relação à sua própria polícia e a confiança nos agentes de um país estrangeiro, a que submetem os cidadãos que voam nas companhias nacionais?

A gritaria que se ouve no Brasil em relação à elementar medida de reciprocidade de controle dos cidadãos norte-americanos que desembarcam no Brasil, enquanto isso for feito com os brasileiros que chegam nos Estados Unidos, segue a lógica em que o governo Fox - como posto avançado de Washington na América Latina, presidido pelo ex-gerente geral da Coca-Cola - deu os graves passos.

Felizmente a política exterior brasileira não está mais submetida à atitude subserviente dos que tiram os sapatos nos aeroportos dos EUA, mesmo em missão oficial do governo brasileiro. Ceder num tema como esse pode parecer um tema turístico e econômico, mas como disse o ministro Celso Amorim, o Brasil não submete sua soberania e seus valores por um punhado de dólares.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História" (Boitempo Editorial) e "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo).

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