A Sudene foi criada em 1959, no governo Juscelino Kubitschek, e idealizada pelo economista Celso Furtado, o primeiro superintendente a comandá-la. Furtado permaneceu no cargo até 1964, quando foi cassado pelo governo militar. Hoje, ele é o economista latino-americano mais lido do mundo. Publicou 30 livros, traduzidos para 15 idiomas e com mais de 2 milhões de exemplares vendidos. Em entrevista à Agência Brasil, Furtado se revela satisfeito com a recriação do órgão, presente de aniversário de 83 anos, completados no sábado.
Qual deve ser a prioridade da chamada Nova Sudene?
A verdade é que a prioridade número um, o Lula já deu, é o problema da fome. Porque a fome é muito mais complexa do que se imagina geralmente. Trata-se de um atraso muito profundo. Eles estão certos nesta estratégia: começar vendo o que se chama em economia de estágios fundamentais de uma população. É quase como reconstruir uma população. O efeito de tudo isso vem com o tempo, não é do dia para a noite que se vai obter resultado. Deve-se olhar isso com muita calma. Não é pensar em milagre, é pensar em atacar profundamente. A Sudene fez um trabalho esplêndido, no que diz respeito a investimento em pessoal técnico. O Nordeste hoje não é mais o Nordeste de quando começou a Sudene. O pessoal técnico do setor público e privado hoje em dia é muito mais bem equipado. As universidades do Nordeste são uma coisa admirável em relação ao que havia no passado. Não existiam praticamente, eram rudimentares. Houve muita coisa importante, é preciso ter em conta isso. Agora, o que vem pela frente é mais complexo, porque é necessário atacar a fome, mas também reorientar profundamente o desenvolvimento do Nordeste. E isso é um trabalho que também toma tempo.
O que faltou ser executado em seu plano original para a Sudene e gostaria de ver retomado agora?
No plano original, havíamos nos baseado na ilusão de que havia um governo com muito apoio popular e que isso alimentaria um processo de transformações da estrutura agrária. Por isso, quando nós começamos, a primeira coisa que fizemos na Sudene foi um projeto de lei de reforma agrária disfarçado de uma lei de irrigação. Era preciso aproveitar melhor as terras irrigadas, e nós começamos a reforma agrária por aí. Isso foi levado a sério. Só que as forças reacionárias bloquearam tudo isso. Não foi possível tocar no problema agrário, que é o mais grave no Nordeste, sem dúvida nenhuma. Hoje em dia, se há mais recursos para abordar o problema, como eu estou vendo que há muito mais recursos e mais coragem dos políticos, que já não são mais tão subordinados aos interesses dos latifundiários, isso é um avanço.
Celso Furtado: 'A fome é a prioridade número um'
Sexta, 01 de Agosto de 2003 às 07:34, por: CdB