Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026

Celebrando Josué de Castro

Quinta, 07 de Agosto de 2003 às 06:15, por: CdB

Ao longo de minha vida, sempre tive grande dificuldade de escrever sobre Josué de Castro na condição de sua filha. Talvez por conta de ser cientista social, obrigava-me a ter uma visão excessivamente técnica de sua obra ou ficava temerosa de que, invadida pelo sentimento de orgulho, faltasse com a isenção.

Uma das vezes em que o fiz – mais na condição de filha do que de cientista social – foi quando aceitei o convite da editora Vozes para prefaciar o livro de Jean Ziegler, A fome contada a meu filho, festejada idéia do consagrado economista e cientista de escrever um livro em forma de diálogo mantido com seu filho. Naquela oportunidade, escrevi:

- Vivi, pessoalmente, esta experiência. Foi meu pai, Josué de Castro, o primeiro cientista no Brasil, talvez no mundo, que procurou levantar o véu que encobria este fenômeno denominado fome e transformado em tabu e tema obscuro pela sociedade ocidental. Cresci ouvindo falar de fome desde a mais tenra idade. A princípio como mera e atenta ouvinte, após como jovem interessada e finalmente como cientista social fascinada pelo tema e pelas idéias.

Alimento, ainda hoje, passados muitos anos, uma profunda e sentida sensação de tristeza, quando recordo o homem afetuoso com quem convivi e cientista incansável que admirei em razão de suas claras e entusiasmadas explanações feitas, quase todas as noites, em torno da mesa em que realizávamos nossas refeições. Discorria sobre suas descobertas, sobre suas propostas, que acreditava poderiam solucionar, se implementadas, parte dos problemas mais agudos da sociedade. Foi por intermédio de suas palavras que pude reconhecer o quanto é difícil viver neste mundo de homens que são capazes de criar infinitas belezas, capazes tecnicamente de controlar a natureza, capazes de cantar a paz, mas, também, diversamente de outros animais que só atacam para saciar a fome, praticar atrocidades inomináveis contra seus semelhantes. São capazes de aprisionar, torturar e escravizar outros homens, produzir alimentos e não distribuí-los para todos, romper com o equilíbrio ecológico, poluir rios e mares, destruir florestas, consolidando a desigualdade, aumentando a pobreza, tudo em busca de mais riqueza.

Hoje, retomando o tema ao escrever para Democracia Viva, novamente fico estimulada a falar, um pouco, ainda como filha de Josué de Castro.

Em 1973, morria, no exílio em Paris, o autor de Geografia da fome, seu mais conhecido livro, traduzido em 25 idiomas, marco científico para o aprofundamento dos estudos sobre o fenômeno da fome, em todo o mundo.

Nove anos antes, quando era o embaixador do Brasil junto aos Órgãos das Nações Unidas, em Genebra, teve seus direitos políticos cassados. Interrompia-se, pelo arbítrio, a profícua atividade do médico brasileiro que, aos 21 anos, iniciara sua atividade clinicando no Recife e que chegaria, no futuro, a representar seu país em muitas ocasiões. Lamentavelmente, a cassação o alcançou em fase de apogeu físico e intelectual. Tinha 65 anos. Morreu muito cedo. Muito ainda tinha a realizar. Voltou ao Brasil para ser enterrado, com autorização de seus detratores.

Entretanto, o Brasil que aceitava enterrar seu corpo com ele enterrava suas obras. Seus livros continuavam desaparecidos de livrarias e bibliotecas. Não era mais possível encontrar, nas estantes brasileiras, Geografia da fome, Geopolítica da fome, Homens e caranguejos, O livro negro da fome, Ensaios de geografia humana, Ensaios de biologia social, Sete palmos de terra e um caixão, O ciclo do caranguejo, A explosão demográfica e a fome no mundo e A estratégia do desenvolvimento. Aparentemente, todos estavam relegados ao esquecimento, embora continuassem a ser editados em todo o mundo. Mas a fome e a miséria continuavam, infelizmente, presentes em várias sociedades.

No caso do Brasil, a fome e a miséria persistem até hoje, como resultado de uma cruel concentração de renda, poder e propriedade que provoca um ime

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