<i>Circuito Fechado</i>, exposição que acontece a partir desta terça-feira no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio e vai até o dia 19 de setembro, elucida sobre quem foi Bruce Nauman, que é visto de forma compreensiva no país, apesar de suas esculturas, desenhos e instalações não estarem presentes.
- É a primeira mostra, até onde sei, que apresenta, de forma tão abrangente, sua produção em filmes e vídeos. Nesse conjunto, vemos como ele questiona a idéia de narrativa, pois suas obras não têm começo, meio e fim, o que contraria a experiência do cinema - conta Nessia Leonzini e Lílian Tone, também curadoras do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York).
Ele influenciou toda uma geração de criadores nos últimos 40 anos, tornou-se referência obrigatória para a performance e as artes visuais. Pela primeira vez no Brasil, a obra em vídeo e filmes de Bruce Nauman ganha mostra significativa, que abrange desde seu primeiro trabalho até o mais recente.
- Em ordem cronológica "flexível", a exposição tem início com seus primeiros filmes, que lidam com o conceito de escultura expandida - afirma Tone.
"Coxando (Azul)", de 1967, sua primeira obra individual, um neologismo a partir do título em inglês "Thighing", mostra o artista manipulando, por dez minutos, sua própria coxa, como se fosse uma massa a ser transformada em objeto escultórico. Outro trabalho, "Batendo Bolas", apresenta Nauman manipulando seus testículos, aproximando-os do chão.
Aí estão os elementos que vão marcar a carreira do artista: o uso do corpo como campo de experimentação, o tempo como pressuposto da experiência, o espaço como referência fundamental para a ação e a utilização da tecnologia aplicada em seus limites.
- Buscamos selecionar suas obras seminais, são os ícones de sua produção - informa Leonzini.
A curadora aponta também "Arte/Maquiagem", realizada em 1967 e 1968. Com quatro filmes projetados simultaneamente em quatro paredes, cada um mostra, em dez minutos, Nauman passando sobre seu corpo uma camada de maquiagem. Primeiro o branco, depois o vermelho, então o verde e finalmente o preto.
- Em primeiro lugar, aqui vemos como ele lida com a noção de pintura expandida, usando seu corpo como suporte. Depois, com as várias questões que ele aborda: de gênero sexual, da manipulação do corpo, do tempo, da raça e da transformação - declara ainda Nessia.
Outra obra icônica e raramente vista, segundo Tone, é "Obra de Vídeo para Vigilância (Sala Pública, Sala Privada)".
- Este trabalho é composto por duas salas, uma aberta e outra fechada ao público, ambas equipadas com câmaras de vigilância e com monitores que mostram o que ocorre nas salas opostas. Como uma sala é fechada e, portanto, não haveria nada que ocorresse para ver no monitor dali, é preciso esperar que a obra aconteça, pois após um tempo o visitante poderá se ver registrado no monitor da sala ao lado. Aqui, já em 1969, ele tratava de fenômenos hoje contemporâneos, como os "reality shows" - diz Tone.
Seu trabalho mais recente, "Versão Escritório nº1, Mapeando o Estúdio", de 2001, também na mostra, trata de assunto parecido, com o próprio escritório de Nauman gravado com luz infravermelha à noite.
Quem tiver paciência para ver a obra, de 51 minutos, observará, em rápidos momentos, ratinhos correndo pelo espaço. Então, sua pesquisa volta-se a um caráter do acaso, "meditativo", segundo o próprio artista. Em comparação com suas primeiras obras, a reviravolta é completa. Se antes era o artista quem manipulava, agora ele se deixa manipular.
Circuito Fechado - Filmes e Vídeos de Bruce Nauman - Centro Cultural Banco do Brasil (r. Primeiro de Março, 66, Centro, Rio, tel. 3808-2020)
Aberto de ter. a dom., das 10h às 21h. Até 19/09.
Entrada franca