Se foi bala perdida ou tiro certeiro, ninguém sabe. Mas o disparo contra o Palácio do Planalto, que abateu um funcionário de segundo escalão, atingiu também a espinha dorsal do governo petista. Quem entende de política no Congresso Nacional, e não está emocionalmente abalado pelos desdobramentos do primeiro escândalo de corrupção da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, avalia que o ministro da Casa Civil, José Dirceu, está "ferido de morte, respirando por aparelhos".
Com variações, a expressão está sendo usada por políticos experientes na maioria das conversas. Em uma reunião dos principais líderes do PFL, a análise do deputado Vilmar Rocha (GO) foi avalizada por unanimidade, do presidente do partido, senador Jorge Bornhausen (SC), ao senador Antonio Carlos Magalhães (BA), seu eterno desafeto. Nos círculos mais graduados do PMDB e do PSDB a constatação é a mesma. O projétil atingiu a medula cervical do governo, fazendo com que o corpo não execute os comandos cerebrais. O homem forte do governo Lula não morreu, mas está fora de combate.
Os danos poderiam ter sido menores se a vítima tivesse esperado por socorro profissional sem se movimentar após ser alvejada. Mas, por reflexo condicionado ou arrogância, o ímpeto da reação foi mais forte que o instinto de preservação. Baleado, quis se levantar rápido para identificar o atirador, perseguir os suspeitos e devolver os disparos. Achou que poderia sair do incidente tão forte como antes. Mas os movimentos estabanados agravaram o ferimento.
Oposição se aproveitou
A oposição soube se aproveitar do vacilo. Não se trata de julgar a integridade e a honestidade do ministro ou do governo, ponderam os oposicionistas. No jogo político da disputa do poder não se poupa adversário desguarnecido. Principalmente um adversário do porte do ministro José Dirceu - o general da vitória petista, responsável pela execução do projeto partidário de permanecer décadas no comando do país. A cartilha da política ensina que "não adianta a mulher de César ser honesta, ela tem de parecer honesta". Para recuperar a biografia imaculada, o ministro precisará abrir a guarda, deixando que o esquema de arrecadação de fundos para a campanha petista de 2002 seja vasculhado. Não parece estar disposto a isso. "Não vamos colocar água no moinho da oposição", dizem os dirigentes petistas.
Na UTI do Planalto, Dirceu tem poucas chances de sair do tratamento sem seqüelas. Pode entrar em estado vegetativo a qualquer momento, caso surjam novos fatos comprometedores; pode ter de conviver com a bala na medula pelo resto da vida, sendo alimentado pela solidariedade dos companheiros; ou pode se recuperar com a terapia intensiva e a atenção da equipe de especialistas do PMDB, chefiada pelo presidente do Senado, José Sarney (AP). Dirceu é um guerreiro que sabe sobreviver na aversidade. Mas o tratamento pode demorar: convalescença, fisioterapia, acompanhamento. Período no qual a dúvida permanecerá: será que voltará a ser o mesmo de antes?
Esperança da esquerda
Muitos sonhos estão escorados nos ombros do chefe da Casa Civil. Em um governo de coalizão tão ampla, no qual estatizantes e liberais dividem a mesa na reunião ministerial, só o peso de um ministro forte pode deslocar o leme para a esquerda. É o que parecia estar acontecendo a partir da reforma ministerial. Muitos rancores também estão rodeando Dirceu. Ele encarna o tipo valentão, temido em toda a redondeza. Ordena, humilha e atropela com a naturalidade de quem confia na própria força e capacidade. Ninguém ousa enfrentar os valentões quando estão de pé. Mas, quando perdem o equilíbrio e caem, aparece chute vingativo de todo lado.
Para retirar a bala da medula, o modo mais rápido - e mais arriscado - é a cirurgia da CPI. O roteiro do escândalo vem sendo seguido à risca e chegou no momento em que a instalação da CPI interessa menos à oposição que ao governo. Se estiverem falando a verdade - q