Entre 500 e mil caminhões trafegam pelo sul e sudeste do Pará, com epicentro em Marabá, escoando a produção de milhares de fornos primitivos, mais conhecidos como "rabos quentes", operados por algo como 20 mil pessoas, que produzem diariamente milhares de metros cúbicos de carvão vegetal. O monstro vem crescendo há anos, mas parecia envolto numa bolha opaca, que o tornava invisível. Só agora foi descoberto pelas autoridades.
Era o lixo, colocado para debaixo do tapete, de um expressivo pólo de ferro-gusa, já se aproximando da 20ª usina em operação, que se implantou ao longo da ferrovia de Carajás. Sete delas estão instaladas no Pará, que deverá receber mais cinco nos próximos meses. Outras 12 estão do lado do Maranhão, cinco das quais em Açailândia.
As guseiras foram se multiplicando, mas deixava-se para depois uma inquirição óbvia: de onde provém o carvão que utilizam? Enquanto havia meia dúzia de usinas, era possível ser embalado pela conversa de que o carvão era produzido apenas a partir de sobras de madeira das serrarias, sem provocar desmatamentos novos, e que logo essa fonte seria substituída pelas florestas energéticas, a partir de projetos de reflorestamento com eucalipto.
As sobras de madeira existem, as intenções reflorestadoras também. Mas nada equiparável ao consumo de carvão vegetal agora que o pólo começa a ter tamanho mundial, de 1,5 milhão de toneladas, necessitando de 4,2 milhões de metros cúbicos de carvão a cada ano. A competição se acirra, embora todas as usinas tenham um único fornecedor de minério de ferro, que é também o proprietário, por concessão pública, pelo prazo inicial de meio século, da ferrovia de Carajás: a Companhia Vale do Rio Doce.
Enquanto começam os ensaios para atrair a atenção do Cade, a agência do governo que combate a formação de cartel e a prática de dumping, para o virtual monopólio da CVRD na área, a Cosipar, a mais antiga guseira do Pará, montou, a partir de Marabá, uma insólita operação para transportar gusa através de caminhão, numa distância de mais de 500 quilômetros, em mil viagens (sem carga de retorno) para cada um dos três embarques que efetuou no porto de Vila do Conde.
Com essa façanha, autêntica ficção científica em matéria de economia mineral, a se sustentar no preço recorde (e provavelmente efêmero) do produto, graças à aquecida demanda chinesa, Luiz Carlos Monteiro, o dono da Cosipar, espera demonstrar a viabilidade do sistema de transposição da barragem de Tucuruí, livrando-se assim do monopólio ferroviário da CVRD. As eclusas ainda estão a claudicar no cronograma financeiro, apesar de mais uma rodada (literalmente) de promessa federal, renovada pelo presidente Lula, que disse estar empenhada em inaugurar a obra antes do final do seu mandato, no já tão próximo ano de 2006. Monteiro também ganhou o título de empresário do ano no Pará, outorgado pela Federação das Indústrias.
Visão de futuro? Nem tanto. Se a sala de visitas é bonita, a saída de emergência é terrível. Agora que ela se exibe, é difícil evitar o choque causado na opinião pública por uma atividade já expurgada de quase todos os países do mundo, num processo que reservou ao Brasil a triste condição de único grande produtor de gusa à base de carvão vegetal.
Quando o horizonte começou a ser desenhado, em 1982, com a criação do Programa Grande Carajás, nenhum dos personagens bem informados sobre esse novo capítulo desconhecia que se estava a inventar a pólvora. Um ponto de compra de carvão num lugar qualquer de uma floresta é como um vírus invasivo num organismo indefeso.
A pólvora pode ser boa, como o empresário-engenheiro mineiro Luiz Carlos Monteiro não se cansa de proclamar. Seria o ferro gusa tropical, de qualidade melhor, graças ao carvão vegetal, e que poderia imunizar-se contra os seus efeitos desastrosos com enormes áreas de reflorestamento e produção organizada. Isso, nas pranchetas e nos shows de informática. Na realidade, o que se tem visto é
Rio de Janeiro, 26 de Maio de 2026
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