Enquanto a imprensa européia de esquerda defende Cesare Battisti, Carta Capital usa a mesma linguagem dada aos “subversivos brasileiros” nos anos de chumbo.
O exercício do jornalismo envolve uma grande responsabilidade, principalmente quando se relaciona com o destino de pessoas. Escrever um artigo, que pode influir na decisão de um juiz e implicar na condenação de um homem à prisão perpétua, exige serenidade, cautela e principalmente provas.
Não se pode “cozinhar” textos de uma só fonte para lançar acusações, principalmente numa revista tida como de esquerda, quando o tema é pouco conhecido no Brasil e o artigo publicado poderá fazer lei e servir de referência.
É regra de Direito a presunção de inocência para qualquer cidadão. Embora haja abuso, geralmente por suspeitos abastados, esse princípio tem de ser respeitado, senão serão os pobres e os revoltados contra o establishment as principais vítimas da presunção de culpabilidade.
Refiro-me ao artigo Em pele de cordeiro, publicado em julho, na revista Carta Capital, sobre o italiano Cesare Battisti. Não conheço Battisti pessoalmente, mas tenho acompanhado sua dolorosa trajetória pelos jornais europeus. Não acredito que seja um anjo, nem que precise de minha compaixão, mas se trata de um ser humano e é, considerando-o como um homem e pai de família, punido com cerca de trinta anos de fugas e perseguições numa existência ao fio da navalha, que tenho defendido Cesare Battisti.
Na defesa da concessão do benefício de asilo político a Cesare Battisti tenho estado quase sozinho na imprensa brasileira, enquanto uns poucos do lado político, como o deputado Fernando Gabeira e o senador Eduardo Suplicy procuram evitar a extradição desse italiano, condenado à revela à prisão perpétua na Itália.
Não conheço também pessoalmente meu colega jornalista autor do artigo na Carta Capital, mas seu texto é preconceituoso, usando o mesmo estilo e terminologia com que eram tratados os “subversivos brasileiros” na época da ditadura militar brasileira.
Ora, como o autor desse texto escreveu também um livro sobre jornalismo investigativo, não consigo entender porque tanta parcialidade contra o jovem operário filho e neto de comunistas, admirador de Marx e Pasolini, numa província italiana, naqueles nebulosos anos 60-70, em que tantos outros jovens, na Europa, como aqui no Brasil, pegaram de forma canhestra em armas na ilusão de ser esse o caminho para reformas sociais.
Com a certeza de um promotor ávido de condenações, o autor não deixa margem a dúvidas para seus leitores e diz taxativo: “Cesare argumenta ser ativista político, mas não passa de um criminoso comum”.
Esse texto, que me chegou as mãos com quase três meses de atraso, me lembra a mesma linguagem dos jornais baianos, cariocas ou paulistas sobre os bandidos, ladrões, assassinos seguidores de Lamarca e Marighela.
O texto é definitivo, nada no condicional, como num jornal da PIG (termo tão bem criado pelo colega Paulo Henrique Amorim) da época da ditadura. E essa certeza do autor de estar contando para os brasileiros a verdade, acaba por corroborar um mentira, quando afirma ter sido Battisti e seu bando o responsável pelo tiro que tornou paraplégico o filho do joalheiro. Uma pesquisa mais “investigativa” pelo próprio Google teria mostrado ter sido um tiro do próprio joalheiro, numa tentativa de se defender.
Isso não justifica o injustificável, mas mostra haver erros no relato dos acontecimentos, mesmo porque, verdade ou não, Battisti nega ser o autor dos assassinatos que lhe foram imputados por um dos chefes do grupo armado, que se arrependeu, denunciou e foi libertado.
Para o autor do artigo na Carta Capital, o que vale são as informações da embaixada italiana preocupada com a concessão ou não da extradição a Cesare Battisti. A alegria de Romano Prodi com a prisão de Battisti no Brasil, sem se preocupar com os interesses eleitorais de Prodi, com a cotação em baixa. E o autor critica a não extradição pela França de outros italianos à Itália, por terem se beneficiado da Doutrina de Mitterrand, favorável à concessão de anistia para uma centena de antigos militantes esquerdistas italianos, vivendo na França.
Ora, dia 16 a Comissão Nacional de Refugiados afirma se é ou nao favorável ao asilo para Cesare Battisti, decisão importante para o STF, e o artigo publicado de maneira tendenciosa na Carta Capital, mostrando que infelizmente não existe mesmo imprensa de esquerda no Brasil, pode ter uma maléfica influência. Esperamos que a matéria imparcial e a entrevista com Battisti, publicadas em outra revista, Piauí, seja lida pelo relator.
PS. O presidente francês Nicolas Sarkozy decidiu não extraditar para a Itália a ex-militante das Brigadas Vermelhas, Marina Petrella, por causa humanitária.