À Memoria de José Eduardo Cajado Moncau, o Peninha
Cena 1: São Paulo, zona oeste, sábado 29 de maio, 20 horas. José Eduardo chega à sua casa, junto com sua mulher, Tânia. Em direção ao carro deles, em desabalada carreira, mancando, alguém se aproxima. Tânia diz: "parece que é o vigia, que deve estar em dificuldades". José Eduardo mal tem tempo para comentar: "pode ser um ladrão". Não pôde certificar-se: sem falar, nem nada pedir, o estranho apontou-lhe uma poderosa arma e disparou na cabeça de José Eduardo, que caiu imediatamente sobre o volante, enquanto Tânia saia do carro para apelar ao assaltante. Ato contínuo, atirou mais duas vezes, à queima roupa, também na cabeça. Jogou-o para fora do carro e, na lembrança de Tânia, parece que , dando ré, ainda passou sobre o braço de seu marido. Tânia levou um tiro que lhe atravesou a coxa. O fim não precisa ser contado, já estava pressuposto.
Cena 2: Rio, sábado 29 e domingo 30 de maio. Casa de Custódia de Benfica, zona norte. Presos do CV e do TC se rebelam e ajustam contas. Um agente penintenciário tenta intervir no tumulto. Balanço final: o agente, feito refém, assassinado. 30 mortos, cifra ainda provisória, corpos mutilados, decepados, degolados, sem - ainda - identificação de a que bando pertenciam. Relato simples, anônimo como suas vidas.
Elo de ligação: Há? Entre um professor universitário, de classe média, sua morte e a de 31 outras pessoas, trinta delas marginalizados, "elementos" na gíria jornalístico-policial, bandidos? O desemprego rampante, presidente. Não o do professor, mas o dos que terminam no crime, tantas vidas atoladas no terrível círculo vicioso que vai acabar, invariavelmente, num cano de pistola ou na lâmina de uma faca, nas chacinas das amplas periferias ou nas rebeliões intramuros das instituições penais e policiais.
Há jeito, presidente? Há. Mas não com sua política econômica, com os anêmicos 2% de crescimento assinalados para o primeiro trimestre, motivo de orgulho, prova de que a política econômica está dando certo. Os 2% na verdade são 0,7%, pois se deve descontar o crescimento da população. Faça-se uma retificação menor, para não atribuir ao seu governo o total lamentável do desemprego: ele vem num crescendo, mas nos 16 meses de seu governo o formidavel exército de desempregados viu-se acrescido de um não menos volumoso contingente de 1 milhão de brasileiros.
O que se requer é muito mais: é, para não sermos "revolucionários", "radicais" e toda a classe de impropérios da impotência da imaginação dos críticos da crítica, uma política rooseveltiana. Empregos, presidente. Tratar como emergencial uma situação que é de emergência. O país e a nação estão se atolando na barbárie, presidente. Não leve a sério a satisfação arrogante e autista dos que aconselham cautela. Chico Buarque já dizia: devagar é que não se vai ao longe.
Transfira os recursos do seu Fome-Zero para a Caixa Econômica Federal para subsidiar a diferença entre os juros normais da Caixa - não os obscenos juros do mercado, esse Deus ao qual se imola o povo pobre - e o juro zero que deve ser cobrados dos mutuários com renda até R$ 500,00 ou até mesmo R$ 1.000,00, para não liquidar a Caixa e não fazer, simultaneamente, o escárneo de que os pobres podem pagar juros mais altos do que os cobrados pelas concessionárias de automóveis e pelas Casas Bahia, que já é hoje de 1% ao mês. O efeito multiplicador da construção de uma casa é cem vezes superior aos R$ 50,00 do Fome-Zero; consulte seus economistas desenvolvimentistas, não os Chicago boys, que os há aos montes no seu governo.
Ponha como condição mínima para os empréstimos que o Banco do Brasil faz aos empresários, que aumentem a taxa de utilização de mão-de-obra. Obrigue a incluir nos contratos de obras públicas, de todas que recebem verbas federais, uma quota mínima de mão-de-obra, acima do que já empregam nas péssimas condições de exploração da força-de-trabalho.