Há um cheiro de fritura no ar. Não, não, caros (e)leitor e (e)leitora, o odor penetrante não vem dos assim batizados "radicais" do PT, os formadores da nova categoria social, os "sem bancada". Eles estão na verdade expostos no pelourinho, onde periodicamente tomam algumas chibatadas para escárnio de si mesmos e exemplo para os demais. O cheiro da fritura emana do próprio partido, o PT: é ele que está sendo frito.
Por ora ainda são suas gorduras que estão na frigideira, mas logo chegarão a vez da carne, e a vez do próprio osso, se as coisas assim continuarem. A banha da fritura, envolvente e ardida, são as reformas, sobretudo a da Previdência. Em seu nome tudo se faz, tudo se comete, não há pecado ao sul do Equador, como escreveu Barlaeus, o biógrafo de Maurício de Nassau.
Uma perspectiva histórica
No Prata e no extremo sul do Brasil existe um termo muito expressivo para certas atitudes políticas: "acaudilhar". Ele descende dos velhos tempos em que caudilhos arrastavam, primeiro, seus peões e capangas armados em aventuras políticas ou guerras de fronteira que exigiam sobretudo coragem, determinação e sangue frio ou quente, conforme a ocasião. Depois passou para a política propriamente dita, designando os líderes, que no estilo de um caudilho, arrastavam, "acaudilhavam" multidões, partidos, sindicatos, na esteira de seus propósitos.
Hoje não há mais espaço para caudilhos. No Brasil, os últimos foram gente da estirpe e do estilo de Flores da Cunha, Batista Luzardo, Osvaldo Aranha. Vargas, com sua carta-testamento, escreveu também o epitáfio do caudilho na política brasileira. Mas algumas marcas do estilo ficaram: está aí o ex-governador Brizola, peça viva de um museu da história. Findo o mundo dos caudilhos, o verbo, transformado em metáfora, pode se aplicar a qualquer reino: por exemplo, o Felipão acaudilhou a seleção e ganhou a Copa.
Pois penso que em nome das reformas a estratégia do Palácio do Planalto vem sendo a de "acaudilhar" a tudo e a todos na sua esteira (a do Planalto e a das reformas), inclusive o próprio partido. Os próprios discursos às vezes exaltados do presidente, ao invés de arroubos intempestivos, são parte dessa estratégia.
A mídia e o olhar crítico de parcela da intelectualidade descrevem esses discursos como de índole "messiânica". Já escrevi nesta coluna que discordo da interpretação. Nada vejo de messiânico nesses discursos: o presidente não está prometendo um outro mundo, de leite e mel, ou onde mar e sertão se confundam; não está sequer prometendo um outro mundo a ser construído neste mesmo vale de poucos risos e muitas lágrimas onde vivemos, como seria o caso se sua fala fosse revolucionária.
Não: o presidente está prometendo apenas administrar melhor o presente, para vislumbrar se há algum futuro, e para isso empreende algumas reformas comezinhas de um receituário de há tempos recomendado à exaustão por agências internacionais, para ver se estabiliza o dólar, a inflação e o risco Brasil. Mas no Brasil o drama político e social é de tal ordem e de tal volatilidade que para isso é necessário "acaudilhar" parte considerável dos atores políticos e sociais, a começar pelo próprio partido.
Se não se põe ordem na cozinha, como transmitir confiança em que se vai arrumar a casa? O discurso do presidente e a política do Planalto não estão se tornando messiânicos, mas sim "acaudilhantes".
Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.