Rio de Janeiro, 15 de Maio de 2026

Cardozo descarta acordão,quer financiamento público

Sábado, 30 de Julho de 2005 às 10:12, por: CdB

Vista pelo governo como uma questão sistêmica, a atual crise política brasileira significa, ao mesmo tempo, problema e oportunidade: a chance de usar o momento crítico como trampolim a mudanças estruturais.

Esse é o diagnóstico do deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), parlamentar de destaque na CPI dos Correios que, em entrevista à Reuters, afirmou enxergar no financiamento público de campanha um duro golpe à corrupção no país.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

"Há duas questões na estrutura do Estado brasileiro e do sistema eleitoral que se repetem de forma cíclica. Uma é o financiamento eleitoral: há historicamente uma relação de promiscuidade entre os captadores e doadores de recursos. Esta é a principal porta de entrada da corrupção no país.

Outro problema é o grande número de cargos de livre provimento na administração, que propicia a manutenção da cultura política na qual parlamentares, para dar apoio ao governo, indicam pessoas para esses cargos, comprometendo a independência da ação parlamentar e inoculando o vírus da corrupção dentro da máquina administrativa. Problemas desse tipo ocorrem em qualquer governo, independentemente do seu ideário e sua condição ética."

"Há outras portas para a corrupção, mas, no Brasil, o financiamento eleitoral é a principal. Uma solução radical para isso seria o financiamento público de campanha. É uma alternativa, embora radical, que tornaria mais transparentes os gastos. O Estado assumiria o ônus público do exercício democrático das eleições e permitiria maior controle das despesas de campanha (...)

Quem mantém relações negociais com o Estado muitas vezes só mantém essas relações se entrar no chamado esquema. Muitas vezes empresários participam disso porque não têm outra alternativa. Nessa lógica, políticos só podem se eleger se tiverem recursos, se entrarem nesse esquema. É um ciclo vicioso."

"Do ponto de vista legal, estamos aparelhados. O problema está na cultura política. Você pode fazer a lei que quiser, mas enquanto a sociedade brasileira não tiver clara a distinção entre o público e o privado, ela elegerá representantes que também não têm clara essa dimensão."

"Quando você desnuda as causas geradoras de uma crise sistêmica --como é a do sistema eleitoral brasileiro-- este sistema fica abalado, não há meio termo. Meu maior temor pessoal é de que o sistema seja tão poderoso que, ao invés de ser desnudado, consiga desenvolver antídotos que impeçam a investigação total dos fatos.

Isso significa que forças políticas e empresariais podem se mover, inclusive junto a órgãos de imprensa, para buscar um grande acordo que deixe intacto o sistema, mesmo perdendo alguns anéis. É o que chamamos de operação-abafa, ou acordão (...)

Tenho a impressão de que, neste momento, não estamos próximos do chamado acordão, por uma série de fatores que felizmente estão impedindo um grande pacto de preservação. Há uma atuação bastante autônoma da Polícia Federal e bastante independente do Ministério Público. Não temos um 'engavetador-geral' da República, como tivemos em governos passados. São fatores desenvolvidos por este governo, que destoam um pouco da situação tradicional do país.

Você também tem hoje uma verdadeira corrida entre órgãos de imprensa pela veiculação de notícias, uma competição no mercado jornalístico. Não sei se isso é controlável. Finalmente, as CPIs em geral são investigações públicas e trazem a grande vantagem de dar à população um nível muito grande de informação. Nenhum acordo consegue se sustentar se a opinião pública não estiver convencida de que aquilo é o correto."

"Até agora, essa idéia (de impeachment) está muito distante da realidade. Do ponto de vista fático, não há nada que aponte o envolvimento do presidente. Do ponto de vista político, não vejo em nenhuma das forças da oposição o desejo de ir para o impeachment, por fatores de natureza pragmática e institucional.

As oposições fazem isso não com o objetivo da concre

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