Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Cardeais do conclave podem adotar autocensura

Terça, 05 de Abril de 2005 às 16:22, por: CdB

Os cardeais católicos reunidos em Roma para escolher o sucessor de João Paulo II podem parar de falar com a imprensa, para evitar que as reportagens influenciem na escolha de um novo papa, disseram autoridades eclesiásticas na terça-feira.

Alguns cardeais se queixaram, durante as reuniões preparatórias do conclave secreto, que a ampla cobertura jornalística dos possíveis candidatos e das questões mais importantes podem influir naqueles que chegam a Roma com a mente aberta ou que não conhecem muitos colegas.

- Vocês podem ter de ir às Catacumbas para conseguir suas matérias - comentou uma autoridade da Igreja, referindo-se aos subterrâneos de Roma, onde os primeiros cristãos se encontravam para fugir às perseguições.

A Congregação Geral - a reunião diária dos cardeais durante o interregno entre os papas -- pode decidir amordaçar todos os "príncipes da Igreja" na quarta-feira, segundo outra fonte.

- Há muita preocupação em não deixar que a mídia domine o período pré-conclave - acrescentou.

- A impressão é de que isso está vindo dos cardeais do Terceiro Mundo, para quem a mídia é uma besta estranha.

Este é o conclave mais "globalizado" da história - coberto por TVs a cabo, Internet e outros meios de comunicação mais tradicionais. Os jornais italianos publicam diariamente matérias especulando sobre possíveis favoritos ao trono de São Pedro.

No último conclave, em 1978, os cardeais que a imprensa via chegando ao conclave eram quase todos italianos. Os jornais estrangeiros chegaram tarde a Roma, se é que vieram.

O conclave deste ano ainda não tem data marcada, mas deve começar entre os dias 17 e 21. Muitos dos 117 cardeais eleitores não conhecem todos os seus colegas e dizem que querem estar abertos para as discussões. Mas a imprensa mundial já especula sobre os favoritos.

Os prelados não devem discutir possíveis candidaturas em público, mas muitos já falaram aos meios de seus países em termos gerais, explicando que tipo de papa estão buscando.

Um dos mais diretos foi o polonês Zenon Grocholewski, que falou abertamente à emissora TVN24, do seu país, sobre dois "papabile" - o alemão Joseph Ratzinger, que ele considera inteligente, mas velho demais, e o nigeriano Francis Arinze, popular e cativante.

O arcebispo de Chicago, cardeal Francis George, não quis comentar com os repórteres as questões discutidas na Congregação Geral na terça-feira, mas afirmou que a imprensa tem um papel muito maior agora do que em conclaves anteriores.

- Certamente a mídia cria uma sociedade mundial de forma nunca antes vista - disse ele a jornalistas, acrescentando que há temores de que alguns cardeais estejam alimentando as especulações.

- Suspeito que provavelmente vamos falar menos - disse ele.

Depois que o conclave - do latim "com chave" - começar, a imprensa não terá mais acesso aos cardeais.

Mas uma fonte da Igreja disse que uma "mordaça" sobre eles nas duas semanas que antecedem ao conclave pode ter efeito contrário, alimentando mais especulações, uma vez que os eleitores vão dar menos indicações sobre o futuro da Igreja.

Outra preocupação da cúpula da Igreja é que a imprensa - especialmente em língua inglesa - acabe definindo a agenda de uma eleição que deveria ser decidida apenas pelos cardeais e por Deus, segundo essa fonte.

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