Caravana ao Sul ouve vítimas e critica militarização do MéxicoO Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade é uma mobilização cidadã que questiona a guerra contra o narcotráfico do governo Felipe Calderón e se opõe à militarização do país. Foi convocado pelo poeta Javier Sicilia, um católico radical amigo do zapatismo, próximo à filosofia de Ivan Illich, e que teve um filho assassinado. Sem ambiguidade, o movimento questiona simultaneamente os criminosos e o governo. O artigo é de Luis Hernández Navarro.
Luis Hernández Navarro - Correspondente da Carta Maior na Cidade do México
Entre os dias 1° e 19 de setembro, o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade está percorrendo o sul do México. Centenas de pessoas estão viajando milhares de quilômetros através de sete estados da República, vários dos quais estando entre os mais pobres e com população indígena mais numerosa. Em cada um deles ocorreram encontros e manifestações com vítimas da guerra contra o narcotráfico. Centenas de mães, esposas e filhos deram testemunho de sua dor. Os integrantes da caravana e as vítimas buscaram nessas atividades aliviar um pouco a dor, raiva e cansaço que os aflige e oprime seu ânimo. Ao fazê-lo, colocaram em marcha uma devastadora e autêntica crítica do poder nascida da vivência e da evidência do sofrimento injusto.
O Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade é uma mobilização cidadã que questiona a guerra contra o narcotráfico de Felipe Calderón e se opõe à militarização do país. Foi convocado pelo poeta Javier Sicilia, um católico radical amigo do zapatismo, próximo à filosofia de Ivan Illich, e que teve um filho assassinado. Sem ambiguidade, o movimento questiona simultaneamente os criminosos e o governo. Apela à indignação, não para solapar o poder, mas sim para mobilizar a sociedade. Não conta com a simpatia dos grandes meios de comunicação eletrônicos.
A Marcha ao Sul é a terceira travessia pela país que o Movimento organiza. Antes marchou de Morelos até a Cidade do México, e do Distrito Federal a Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos. Nestas caminhadas, milhares de cidadãos mostraram que, como dizia Herbert Marcuse, nossos juízos valorativos mais elementares estão fundados na compaixão, em nosso sentimento pela dor dos outros.
A Caravana do Sul é um ato de justiça, a reparação inicial de um agravo onde os afetados falam e obrigam a que sejam escutados. Seu testemunho incursiona na vida pública, no imaginário, nas vivências e concepções da política, e, ao fazê-lo, derruba as barreiras que segregam as vítimas do direito a comunicar aos outros as ofensas sofridas.
As Caravanas de Javier Sicilia abriram as portas do diálogo. E fizeram isso sem ter que renunciar ao seu idioma, ou melhor, foram construindo sua própria linguagem no caminho. Em uma época de confusão e perplexidade, em um momento de medo e desconfiança, tomaram a palavra sem pedir licença e falaram algo diferente do que estava sendo dito sobre a militarização do país. As Caravanas conquistaram para as vítimas da guerra contra o narcotráfico, simultaneamente, o direito a falar e a legitimidade de seu discurso.
No catálogo de aflições que a Caravana do Sul levantou ao longo do trajeto é evidente que a voz da dor no sul do México tem rosto indígena, de imigrantes centroamericanos sem documentos, de pobreza rural. O coro lancinante de seus lamentos mostra que, além de vítimas da violência, todos eles enfrentam a adversidade de sua condição étnica, de sua miséria, se sua falta de documentos.
Mesmo silenciada pelos grandes meios de comunicação eletrônicos, a mobilização resultou em um grande êxito. Desde que o movimento tomou forma, os sofrimentos das vítimas espalhados pelo país, silenciados e desacreditados ante a opinião pública, começaram a sair de seu confinamento e a reconhecer o valor de sua dignidade. Os familiares das vítimas da guerra contra o narcotráfico deixaram de ser suspeitos de ajudar criminosos e começaram a ser reconhecidos pelo o que são, de fato: vítimas de uma guerra absurda.
Milhares de cidadãos atemorizados pela ação combinada de bandos criminosos, polícia e militares perderam o medo de sair às ruas, dizer sua palavra e exigir o regresso dos soldados aos quartéis. Outros começaram a ver que a ação coletiva tem sentido. Como disseram várias vezes durante a Marcha: já não são os mesmos.
O êxito desta empresa, a sustentação de seu impulso tem diante de si um desafio fundamental: organizar as vítimas, fazer com que sua voz se torne permanente. As vítimas não estão ainda organizadas de maneira autônoma. Nelas se encontra a legitimidade e a razão de ser do movimento. Em sua organização permanente está a chave da continuidade e da autoridade moral de um movimento que já conseguiu vergar o México profundo.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer