Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Carapanã contra mangangá

Por Rui Martins - De repente, em meio à enxurrada de mentiras e ofensas contra ela lançadas, Marina Silva em lugar de jogar uma pedra lançou uma piada. E, naquele sotaque gostoso de nortista do Acre criada no Rio Branco, contou fazendo gestos, e nisso ela é inimitável, haver uma versão sertaneja, nortista, brasileira, da conhecida história bíblica do povo judeu, a de Daví contra Golias. A figura do fraco em comparação ao forte poderia ser ilustrada pelo mosquito carapanã e o zangão mangangá.

Domingo, 28 de Setembro de 2014 às 14:50, por: CdB
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Se houver segundo-turno, os zangões-mangangás vão perder os ferrões
De repente, em meio à enxurrada de mentiras e ofensas contra ela lançadas, Marina Silva em lugar de jogar uma pedra lançou uma piada. E, naquele sotaque gostoso de nortista do Acre criada no Rio Branco, contou fazendo gestos, e nisso ela é inimitável, haver uma versão sertaneja, nortista, brasileira, da conhecida história bíblica do povo judeu, a de Daví contra Golias. A figura do fraco em comparação ao forte poderia ser ilustrada pelo mosquito carapanã e o zangão mangangá. Eu sou o carapanã, disse ela, e na sua magreza com suas pernas finas e corpo esguio, sem celulite e muito osso aflorando o tecido de suas roupas, todo mundo achou que Marina ia levantar vôo como o mosquito violonista. Mesmo quem, como eu, viu só o vídeo e perdeu a chance inestimável de estar entre o povo bebendo as palavras de Marina, tem a impressão de que a acriana se arremete para cima, sai da telinha e voa já no teto, num milagre divino, com a mesma força nas asas que a colocaram na dianteira das sondagens eleitorais até quinze dias atrás, quando foi atingida pelos zangões ou besouros-mangangás. Mangangá ou mangangaba, grande, redonda, peluda, boa de ferroada, porque na verdade é uma abelhona abelhuda, não era a metáfora da presidenta toda poderosa. Marina queria simplesmente dar uma roupagem nova, nossa e cabocla, de uma referência lendária judáica da luta do franzino, fraco, frágil mas destemido, corajoso e valente Daví com sua funda, contra o grandão Golias, atrevido e ameaçador, metido a ser o mais forte, porém só contando com a força e sem nenhuma arte. Nem sempre ganha quem está do lado do poder - uma funda e uma pedra podem fazer a diferença. O besouro mangangá barulhento e destruidor, em revoada solitária ou em grupo de blogs, são os zangões que, invadindo as redes sociais da Internet, polinisaram o medo, fantasiaram mentiras e como esquadrilhas assustaram os eleitores mais humildes sem condições para comparar e pesquisar os dardos sobre eles despejados. O uso de mangangás não está previsto na Lei Eleitoral e por isso não poderá ser punido e nem impedido. E a rainha da colmeia pode festejar a vitória da sua barulhenta tropa de choque, visível nas últimas sondagens, esperando que não seja uma vitória do belicoso general Pirro, que chegou a dizer depois de vencer a Batalha de Ásculo, "mais uma vitória como essa e estarei perdido". A campanha eleitoral do vale tudo poderá terminar dia 5, sem ter sido publicado sequer um programa corrigindo as falhas causadoras das agitações sociais de 2013. Seria um cheque em branco, para se continuar o governo de compromissos, com os sucessores de Sarney, Maluf, Kátia Abreu, e outros tantos, plenamente justificados por táticas partidárias, repartição e distribuição de pedaços daquilo com que se poderia governar. Uma vitória no primeiro turno, seria a vitória do terrorismo eleitoral e das revoadas dos besouros-mangangás falando de complôs, de direita, de campanha financiada por bancos e do fim dos programas de assistência social. Porém, se no dia 6 de outubro, os mosquitinhos carapanãs puderem relançar sua partitura de sons agudos, muita coisa poderá mudar e haverá artilharia antiaérea contra os mangangás. Confirmada a presença de Marina, no segundo turno, ela terá o mesmo tempo de publicidade gratuita na televisão que sua oponente. O vrum-vrum ensurdecedor dos zangões não irá abafar as respostas da franzina acriana às mentiras lançadas sobre ela nestas últimas semanas. Todos vão saber que, embora seja Marina a acusada de ter apoio dos banqueiros, é a campanha de Dilma que recebeu mais que a soma das contribuições dos bancos à campanha de Aécio e Marina. Ficará claro para todos, ser hábito dos bancos, não só o Itaú como o Bradesco e outros, contribuir para a campanha de todos os candidatos, pois não sabem quem vai ganhar. E nada mal saber também serem cada vez maiores os lucros dos banqueiros que gostariam da reeleição do atual governo. Vai se saber também ter sido uma fiasco a política brasileira da emigração, como tem sido a aplicada junto aos índios cujas reservas são ameaçadas, sem se se falar em Belo Monte, onde tribos serão desalojadas como foram desalojados e enviados para a periferia distante os moradores do local onde seria construído o estádio de futebol de Fortaleza. E se saberá que o programa de Marina não prevê nenhum fim de bolsa família ou escola, e que Dilma, em 2010, queria a autonomia do Banco Central, como defende igualmente o senador Cristovam Buarque. Que não tem valor algum uma manchete do jornal L´Humanité, da França, com poucos leitores e não mais dirigido pelos comunistas mas pelo grupo de imprensa Lagardère. Que não é para se levar a sério mas como piada um artigo da TV Sur, de Caracas, pelo qual Marina seria da extrema-direita, confundindo-se provavelmente a nossa Marina, com a Marine Le Pen da França. Muito menos credível se essa mesma interpretação vem de Teerã. É pura má fé da tropa de choque dos zangões, repetir a teoria do complô sobre o acidente do Eduardo Campos, que conseguiram implantar no interior brasileiro, pois a própria Marina deveria viajar no avião. Se os besouros-mangangás não conseguirem amedrontrar mais eleitores, nestes próximos dias, com seus doze minutos de vale tudo, por certo terão de mudar de colmeia no fim de outubro. Rui Martins, jornalista, escritor e advogado. Possui mestrado pelo Institut Français de Presse. É correspondente, na Suiça, do Expresso de Lisboa, da RFI África e Correio do Brasil. Foi correspondente europeu da CBN e Estadão e membro do Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior. É editor do Direto da Redação.
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