Rio de Janeiro, 27 de Maio de 2026

Cannes deve ser uma festa, diz Gilles Jacob

Terça, 10 de Maio de 2005 às 13:11, por: CdB

Os cineastas "são como sismógrafos, sentem o ar do tempo e o retransmitem em seus filmes", o que é impossível de não ser refletido na programação de uma festival de cinema, disse Gilles Jacob, presidente do Festival de Cannes, que começa nesta quarta-feira.

- Basta ler os jornais e ver televisão para saber que esta época não é de diversão - ressaltou Gilles Jacob, presidente de festival considerado um dos mais importantes do cinema internacional.

- Antes da II Guerra Mundial, artistas como Jean Renoir e Marcel Carné anunciavam em suas obras de 1936 e 1938 que haveria uma guerra - lembrou ao ser perguntado sobre a tendência das grandes manifestações culturais, cinematográficas ou não, de incluir em suas programações obras particularmente duras.

É "verdade que a visão da sociedade com todos esses filmes que se sucedem em um festival é bastante pessimista quanto à vida atual", mas o bom programador "saberá alternar", para que seu evento não seja monótono.

- Há também um problema de construção da programação, para que não haja um filme sombrio atrás do outro, porque, do contrário, todo mundo fica desesperado - acrescentou Gilles Jacob, delegado-geral do prêmio até o ano 2000, quando decidiu compartilhar suas responsabilidades com um diretor artístico, Thierry Frémaux, e uma diretora-geral, Véronique Cayla.

- Eu tentei alternar (...). Um festival deve ser uma festa, mas não é preciso se esconder e devemos dar conta do clima do cinema mundial. Por isso, podem ser programados desenhos animados ou comédias, com a condição de que sejam algo a mais do que apenas um filme de gênero - considerou.

Sobre a presença aleatória de alguns países em Cannes, o presidente da mostra lembrou que até 1972 eram "os países que enviavam os filmes".

- Depois, o festival decidiu escolher os filmes e, na verdade, todos os outros festivais imitaram esta decisão.

- Hoje, temos 85 países produtores no mundo, todos querendo vir ao festival. Colocamos treze em competição, um pouco mais na mostra Um Certo Olhar, na Cinefundação e nos curtas-metragens - disse.

- Não são muitos os escolhidos mas a noção de nacionalidade é confusa, pois não vem só do realizador - disse.

Há outros critérios, "evidentemente, o dinheiro", mas também o idioma, a alma do filme, que é um pouco diferente, o lugar onde foi filmado, a nacionalidade dos atores ou do autor do romance no qual eventualmente se inspirou.

Segundo Gilles Jacob, todos estes critérios influenciam um coeficiente "que também depende muito dos jornalistas", por razões de classificação e de competição.

- A imprensa anglo-saxã classifica a sua maneira, de forma não regulamentar, com um critério principalmente baseado no dinheiro - acrescentou.

- Nós pensamos que não há apenas dinheiro em um filme - disse.

Jacob lembrou ainda que há co-produções e, então, de um ponto de vista financeiro, filmes de três ou quatro nacionalidades, às vezes europeus, africanos ou latino-americanos e transcontinentais.

- Apedar de a noção de continente ser mais ampla, pois se traduz em filmes europeus, americanos, asiáticos, africanos e, eventualmente, da Oceania, ainda assim não seria totalmente satisfatório - considerou.

- Isso tudo para dizer que é preciso desconfiar das categorias e que, de fato, o que conta são os autores - ressaltou Gilles Jacob.

Ele que defende cada vez mais abertamente "uma geografia dos autores".

- Neste assunto, o cineasta Luis Buñuel é um exemplo muito bom, porque teve diferentes fases, a espanhola, a mexicana, a francesa - destacou.

Outros diretores fazem filmes de um país, como Carlos Saura, "que viveu toda a sua vida na Espanha e faz filmes espanhóis", lembrou Gilles Jacob, que em sua época de delegado-geral levou "onze vezes" a Cannes este cineasta que "admira e respeita muito", que é um de seus "diretor

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