Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Candidatura de Meirelles prejudica credibilidade da política monetária

Sábado, 15 de Agosto de 2009 às 14:04, por: CdB

O lançamento informal da campanha eleitoral de Henrique Meirelles ao governo de Goiás pelo presidente Lula, nesta semana, cria um precedente institucional ruim para o Banco Central e pode jogar alguma sombra sobre a credibilidade da política monetária.

Mas esse processo, segundo analistas, é atenuado pelo histórico da atuação de Meirelles, que nos últimos seis anos e meio resistiu a diferentes pressões no BC e teve uma atuação considerada estritamente técnica no controle da inflação e na acumulação de reservas.

–O mercado vai começar a olhar para toda e qualquer decisão com uma pequena dúvida: será que há um viés político? É natural que haja uma desconfiança –, disse o diretor-executivo da agência de risco Fitch no Brasil, Rafael Guedes.

– Mas isso é mitigado pelo histórico impecável de Meirelles. Ele nunca se desviou por nenhum milímetro de decisões técnicas.

Pelas regras eleitorais, Meirelles tem até março para deixar o cargo caso confirme a intenção de encarar uma disputa política, o que ainda não ocorreu. Antes disso, até o final de setembro, ele teria que se filiar a um partido político.

A faceta política do presidente do BC, contudo, ganhou uma dimensão maior a partir da quinta-feira, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu abertamente sua candidatura ao governo de Goiás durante viagem a Anápolis, berço político do goiano Meirelles.

Meirelles acompanhava Lula na viagem e estava presente em palanque durante discurso do presidente. Questionado por jornalistas, não confirmou a candidatura e reiterou que seu foco no momento é o Banco Central.

Uma semana antes, após audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Meirelles também havia sido obrigado a responder perguntas de repórteres sobre seus planos políticos depois que diversos senadores defenderam publicamente sua candidatura.

Para Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, a associação explícita de Meirelles a uma disputa política "é um precedente institucional que deve ser evitado".

– A presidência e as diretorias do BC não são compatíveis com o exercício da política –, afirmou.

Após a audiência na CAE, Meirelles afirmou que existem diversos presidentes de banco central no mundo inteiro que são filiados a partidos políticos.

A assessoria do BC afirmou que Meirelles "não vai perder tudo o que construiu ao longo dos últimos anos e que hoje é sua principal herança: o compromisso inabalável com o controle da inflação e com uma política monetária baseada em análises técnicas, e sem injunções políticas".

A assessoria também destacou que a eventual filiação de Meirelles a um partido político "não significa que ele vai ser candidato"

A disputa pelo governo de Goiás, se confirmada, não será a primeira eleição enfrentada por Meirelles. Ele foi eleito deputado federal pelo PSDB em 2002, o mais votado na história do Estado, quando voltou ao Brasil após anos no exterior, onde fez uma bem-sucedida carreira no Bank Boston.

Meirelles abriu mão do mandato parlamentar e da filiação partidária para aceitar o convite de Lula e assumir o comando do Banco Central.

Roberto Padovani, economista-chefe do WestLB, afirmou que a candidatura de Meirelles "aumenta um pouco o ruído", pelo fato de o BC não ter uma autonomia formal. Mas ele pondera que o fato de as decisões sobre juro serem tomadas de forma colegiada, e ancoradas no regime de metas de inflação, atenuam eventuais preocupações.

– Como estrategista, não vou definir os preços dos ativos locais por conta dessa informação –, afirmou. 

Guedes, da Fitch, acrescentou que as dúvidas em torno do sucessor de Meirelles podem gerar mais preocupação do que a atuação do BC até março.

A dúvida em relação ao perfil de um eventual substituto de Meirelles é um dos fatores que limitam uma queda mais expressiva dos juros futuros, principalmente dos vencimentos mais longos, mesmo em meio a notícias positivas em torno da inflação.

Até o momento, o nome mais cotado no governo para substituir Meirelles para um mandato tampão no BC, de março a dezembro do próximo ano, é Alexandre Tombini, atual diretor de Normas da instituição.

Tags:
Edições digital e impressa