Os candidatos às prefeituras das três maiores capitais brasileiras encontraram-se, neste domingo à noite, no último debate permitido por lei antes das eleições que se realizarão, semana que vem, nas cidades onde houve segundo turno. Em São Paulo, os candidatos à prefeitura de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM) e Marta Suplicy (PT), trocaram ironias e ataques às gestões um do outro no debate organizado pela TV Record no domingo, após uma semana repleta de tensão no cenário político paulistano. Ao contrário do último debate, em que a prefeita deu o tom agressivo, neste Kassab também atacou.
A petista pediu desculpas por sua campanha ter exibido uma propaganda que supostamente levantou suspeitas sobre a sexualidade do prefeito-candidato. Ela também voltou a se arrepender, mais de uma vez no programa, sobre a criação de taxas em sua gestão.
Líder nas pesquisas de intenção de voto, Kassab, em tom de ironia, disse entender a autocrítica de Marta e classificou a campanha petista de "maquiavélica" devido à polêmica propaganda que perguntava se ele é casado e tem filhos. Mas também repetiu que seu governo ainda não teve como cumprir tudo o que prometeu.
– Sinto ter molestado o candidato (com a propaganda) e a outras pessoas do meu partido... Foi uma situação bastante constrangedora. Eu nunca seria parceira de algo que pudesse gerar uma confusão. Em vez de discutir política, (as pessoas) ficaram num detalhe, que perverteram – disse Marta em referência às críticas que recebeu inclusive de membros do PT.
Kassab, incomodado por uma pessoa na platéia que gritava ofensas relacionadas à suposta insinuação da propaganda, respondeu apenas:
– Sou solteiro, sou feliz, sou engenheiro.
Diferentemente do encontro da semana passada na TV Bandeirantes, os dois se cumprimentaram antes do debate, que teve média de 14 pontos de audiência e picos de 20 pontos em São Paulo e é o penúltimo antes da votação do dia 26 de outubro. Na noite de quinta-feira, Kassab e Marta debatem pela última vez na campanha, na TV Globo.
Crise na polícia
Além das comparações entre trajetórias políticas e as administrações de Kassab e de Marta na prefeitura, que dominaram a maior parte do programa, os dois falaram sobre a tensão entre as polícias civil e militar do Estado de São Paulo. Na quinta-feira, houve um conflito violento na região da sede do governo paulista por conta de uma manifestação de grevistas da polícia civil.
O governador José Serra acusou o PT e o PDT de terem promovido o protesto por motivos político-eleitorais para prejudicar a ele e a Kassab, que foi eleito vice na sua chapa para a prefeitura em 2004 e herdou o cargo quando o tucano saiu para disputar o Palácio dos Bandeirantes, há mais de dois anos.
– É uma provocação – disse Marta sobre os comentários de Serra, a quem acusou de fazer "exibição eleitoral" do incidente em favor de Kassab.
No sábado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um ato da campanha de Marta, afirmou que Serra deveria pedir desculpas pela acusação. Kassab discordou: "Ele (Lula) fez essa declaração como político, aquele era um ato do PT. Não como presidente... Como presidente, ele tem espírito público (para entender melhor a situação). Ou pelo menos deveria ter."
Falando a jornalistas após o debate, Marta acusou Kassab de não respeitar as mulheres por ter usado tom irônico em algumas respostas, citando o fato de ele bater na madeira da bancada ao dizer que a petista não deveria voltar à prefeitura, se inclinar sobre o púlpito ao dar respostas e acusar a candidata de defender a "taxa da coxinha" quando prefeita, sem dar mais detalhes.
Kassab repetiu em entrevista que a vitória não está garantida e que "sempre existe a possibilidade" de a petista crescer na reta final.
Pegadinha juvenil
No debate que aconteceu no Rio, com a intensificação dos ataques de Eduardo Paes (PMDB), com quem está tecnicamente empatado, Fernando Gabeira (PV) precisou evocar o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para escapar de uma armadilha retórica. Em debate promovido pela TV Record, neste domingo, Paes usou uma sigla administrativa para se referir à Zona Norte ao dirigir uma pergunta ao concorrente, que classificou a situação como "pegadinha juvenil".
– A campanha em que Lula foi candidato, o candidato do PMDB fez uma pegadinha. Perguntou sobre a Cide (imposto que incide sobre os combustíveis). O Lula não sabia. E o Lula venceu as eleições. Eu não tenho medo de não saber algumas coisas – afirmou Gabeira, citando seu ex-aliado político e atual cabo eleitoral de Paes na cidade.
Com freqüência, o peemedebista tem acusado Gabeira de fazer turismo eleitoral no Rio e de não conhecer o funcionamento dos órgãos da prefeitura. Em ato falho no sábado passado, Gabeira chegou a dizer que gostaria de instalar um gabinete da prefeitura na Zona Oeste para o prefeito não "morar apenas no Rio de Janeiro".
– Estava chovendo. Nós estávamos falando no meio da rua. Eu disse que a prefeitura não podia ficar apenas no Rio. Eu queria dizer no Centro do Rio de Janeiro. Essas tentativas são para me jogar contra a Zona Oeste. É uma tentativa incrível de dizer que eu sou o candidato dos ricos contra o candidato dos pobres – complementou ele, que lembrou sua infância pobre no interior mineiro.
Em seguida, Gabeira fez uma provocação ao peemedebista, dizendo que é "muito possível" que consiga o maior número de votos na Zona Oeste - região com 1 milhão de eleitores e dominada por Paes no primeiro turno.
Gabeira contou já ter percorrido 40 mil quilômetros nesta campanha, "quase a volta ao mundo". O candidato disse também ter sido professor voluntário na Zona Oeste antes do exílio e de ter chegado ao local da chacina de Vigário Geral "antes de as velas serem acendidas".
– Dizer que eu não conheço o Rio de Janeiro é um absurdo – concluiu Gabeira.
Em momento desconfortável, Paes tentou justificar suas várias mudanças de partido político. Em 15 anos de vida pública, o candidato passou por cinco legendas.
– A estrutura dos partidos no nosso país é muito arcaica. Na verdade, você tem donos dos partidos que impedem que as carreiras se desenvolvam e que as coisas caminhem. Sem dúvida alguma, foi um equívoco na minha trajetória política. Troquei de partido, mas jamais deixei de lado meus princípios – defendeu Paes.
Irônico, Gabeira lembrou que Paes já mudou até de time de futebol, do Fluminense para o Vasco da Gama. De acordo com Gabeira, nos momentos de mudança de posição política, os dois concorrentes se diferenciam também no estilo:
– Cada vez que eu mudo uma posição, eu escrevo um livro, como fiz no caso da luta armada, ou vou à tribuna do Congresso Nacional e faço um discurso explicando aos meus eleitores.
O peemedebista satirizou ainda três propostas apresentadas por Gabeira nesta campanha: afundar um navio perto das Ilhas Cagarras para promover o turismo; usar avião teleguiado para a prevenção de focos de dengue; e fornecer patinetes para a Guarda Municipal. Gabeira afirmou que suas idéias estão "no caminho do progresso".
Farpas em BH
Depois de uma semana de tiroteio mútuo, Leonardo Quintão (PMDB) e Marcio Lacerda (PSB), candidatos à prefeitura da capital mineira, voltaram a trocar farpas durante debate promovido pela TV Record na noite de domingo. O clima de animosidade permaneceu durante todo o evento e nem mesmo a semelhança entre diversas propostas apresentadas pelos candidatos foi suficiente para reduzir a tensão.
A própria condição partidária dos candidatos foi motivo de ataques. Lacerda afirmou que o PMDB do adversário segue a linha do coronelismo ao ser comandado por caciques regionais e que tem integrantes "não muito honrados". Quintão, por sua vez, afirmou que, caso seja eleito, fará parceria com o governador Aécio Neves (PSDB), mas "sem submissão", em referência à articulação de Aécio e do prefeito Fernando Pimentel (PT) em torno de Lacerda.
Quintão também afirmou que a aliança montada para apoiar a candidatura socialista, integrada por 12 legendas além do PSDB e PPS que participam informalmente da coligação, é composta por "partidos de aluguel".
O peemedebista, no entanto, evitou ataques diretos ao PT --o candidato a vice de Lacerda é o deputado estadual petista Roberto Carvalho-- e afirmou que não vai desmontar a estrutura da prefeitura de Belo Horizonte, comanda pelo Partido dos Trabalhadores e pelo PSB há 16 anos. "O PT vai estar junto comigo. Não vou mandar ninguém embora", disse.
Além disso, Quintão também voltou a citar os ex-prefeitos Célio de Castro (eleito duas vezes pelo PSB mas já filiado ao PT quando morreu, em julho passado) e Patrus Ananias, atual ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, como exemplos de gestão, a exemplo do que fez em programas veiculados no horário eleitoral gratuito.
Lacerda rebateu e disse que o peemdebista não tem o apoio de Patrus nem do chefe da Secretaria-Geral da Presidência, ministro Luiz Dulci, também citado nos programas de Quintão. Dulci e Patrus foram contrários ao acordo entre petistas e tucanos na capital mineira, mas não declararam apoio a Quintão, como fizeram outros dissidentes do PT na cidade.
Lacerda, no entanto, também fez referência ao trabalho de Patrus à frente do Executivo municipal. "Belo Horizonte vem sendo bem governada nos últimos 15 ou 20 anos", disse, sem citar explicitamente o nome do ministro.