Os candidatos à presidência argentina para as eleições de 27 de abril prometem incentivar uma "cultura nacional" para ajudar os artistas locais e enfrentar a crescente penetração estrangeira. Os artistas argentinos se queixam do pouco apoio dos últimos governos, da falta de incentivo para seus projetos e da ausência de uma política de Estado no âmbito cultural. Mesmo assim, em meio à pior crise econômica e social de sua história, a Argentina conseguiu brilhar no ano passado por sua produção cultural. Destacou-se principalmente seu cinema, com cerca de 75 prêmios obtidos em festivais internacionais durante 2002. O país continua a ser um importante produtor de bens culturais regionalmente, e Buenos Aires distingue-se por sua variada oferta artística, com grandes livrarias e espetáculos à altura das grandes capitais mundiais. Um dos candidatos presidenciais, o peronista e presidente da Argentina por breve período em 2001 Adolfo Rodrígues Saá garante em seu plano de governo que defenderá "uma cultura nacional" e que incentivará uma lei de promoção de indústrias culturais. A candidata de centro-esquerda Elisa Carrió disse que se ganhar as eleições irá se ocupar em recuperar as raízes, olhando mais para a própria região e não tanto para a Europa ou os Estados Unidos. "Falar do resgate de nossas raízes culturais é falar de culturas latino-americanas. Neste sentido, o trabalho de cooperação e integração cultural no Mercosul é um desafio estratégico", propõe Carrió em sua plataforma. Artistas e intelectuais são da opinião de que, justamente por causa da crise que vive o país, é mais necessário que nunca voltar às raízes e obrigar os candidatos e os cidadãos a discutirem em termos culturais um modelo para a nação. Muitos analistas crêem que a crise da Argentina é em grande parte um problema cultural. "Primeiro tem que se acabar com a corrupção e definir uma política clara de transparência, porque até que solucionemos esta crise de valores não se poderá solucionar os problemas econômicos e sociais", disse a presidente da Asociación Argentina de Productores de Cine, Cristina Agüero. Enquanto isso, outros analistas advertem sobre a baixa qualidade de alguns produtos musicais que instigam a violência. "É necessário reformar o sistema educativo e que haja uma continuidade de políticas entre os governos. Mas aos políticos a cultura parece que não interessa porque não dá votos", disse o presidente da Câmara Argentina do Livro, Rogelio Fantasía. DEMOCRATIZAR A CULTURA Os argentinos encontraram em 2002, o ano em que a crise golpeou com mais força o país, uma válvula de escape na cultura. Segundo números privados, a assistência ao teatro cresceu, enquanto os espetáculos gratuitos contaram com um grande número de espectadores. O candidato presidencial Néstor Kirchner quer que isso gere um benefício para os artistas. Kirchner garante que os artistas deveriam poder viver de seu trabalho, e com este fim planeja leis para impulsionar a cultura e a proteção das indústrias culturais. Uma das idéias do candidato é que o Estado possa aceitar obras de arte como pagamento de impostos. O candidato de centro-direita Ricardo López Murphy promete uma lei de mecenato. Já para o ex-presidente e atual candidato Carlos Menem, o canal de televisão estatal deverá adquirir um perfil educativo e abandonar a intenção de competir comercialmente com o resto das emissoras.
Candidatos argentinos prometem incentivar uma "cultura nacional"
Segunda, 14 de Abril de 2003 às 15:09, por: CdB