Um juiz canadense absolveu na quarta-feira dois militantes sikhs acusados de envolvimento na queda de um avião da Air India no litoral irlandês, em 1985, que foi o atentado a bomba mais violento da história da aviação civil. O tribunal entendeu que os depoimentos contra eles não eram confiáveis.
O juiz Bruce Ian Josephson, da Suprema Corte da Colúmbia Britânica, concluiu que Ripudaman Singh Malik e Ajaib Singh Bagri são inocentes das acusações de homicídio e conspiração nesse caso e em uma outra explosão, ocorrida em um aeroporto do Japão.
Parentes das vítimas choraram ao ouvir o veredicto, ao final de 19 meses de julgamento. Malik, 58, e Bagri, 55, sorriram para os seus familiares.
Uma das explosões, no vôo 182 da Air India, aconteceu em pleno ar e matou todos as 329 pessoas a bordo. A outra bomba explodiu junto às bagagens no aeroporto Narita (Tóquio), matando dois funcionários.
Josephson, que ouviu 115 testemunhas durante um dos processos mais complicados e custosos da história canadense, disse que os atentados foram resultado de "fanatismo no seu nível mais básico e desumano".
Mas o magistrado disse que não poderia acreditar nas testemunhas-chave convocadas pela promotoria para dizer que Bagri e Malik admitiram sua participação nos atentados, e que a justiça não seria feita se houvesse qualquer dúvida sobre a culpa dos réus.
Mais de 70 parentes de vítimas vieram de todo o mundo para ouvir o veredicto, divulgado em um prédio de segurança máxima construído especialmente para o julgamento, ao custo de 6,2 milhões de dólares norte-americanos.
Malik é um próspero empresário de Vancouver, e Bagri trabalha em uma serraria na localidade de Kamloops, na província da Colúmbia Britânica, além de ser clérigo da religião sikh. Ambos nasceram na Índia e admitem admirar a causa separatista dos sikhs.
"Não posso acreditar no veredicto. Todas essas testemunhas não teriam se apresentado e arriscado suas vidas. Todas essas pobres famílias. Nem em um milhão de anos eu acharia que isso iria acontecer", disse Jeanne Bakermans, ex-funcionária da empresa Canadian Pacific Airlines e testemunha no processo.
Os promotores acusavam os dois sikhs de buscarem vingança por um massacre cometido em 1984 pelo Exército indiano no Templo Dourado de Amritsar, o local mais sagrado dessa religião. Centenas de pessoas morreram naquela operação, destinada a expulsar militantes do templo.
Segundo a polícia, os dois réus haviam conspirado para derrubar dois aviões simultaneamente, um sobre o Atlântico e outro sobre o Pacífico.
Uma bomba destruiu o avião que ia do Canadá para Londres e de lá para a Índia, com 329 pessoas a bordo, no dia 23 de junho de 1985. A outra bomba explodiu 54 minutos antes na bagagem que estava sendo colocada no vôo 301 da Air India, em Tóquio, matando os dois funcionários e ferindo outros quatro.
Malik e Bagri foram presos em outubro de 2000. A defesa admitiu que pode ter havido uma conspiração, mas negou que os dois réus tenham participado dela.
Os dois originalmente deveriam ser julgados junto com Inderjit Singh Reyat, mas este réu se confessou culpado antes do julgamento para receber uma pena menor. Reyat foi convocado como testemunha, mas disse não saber quem pediu a sua ajuda para fabricar as bombas.
Em sua sentença, o juiz se referiu a Reyat como um "mentiroso", cujo depoimento "beirou o absurdo".
A polícia diz que o mentor dos atentados foi Talwinder Singh Parmar, fundador do grupo militante sikh Babbar Khalsa, que foi morto pela polícia indiana em outubro de 1992.
Os nomes de vários outros suspeitos foram citados durante o julgamento, e um porta-voz da Real Polícia Montada do Canadá disse que as investigações vão prosseguir.
A tarefa da promotoria foi dificultada por causa da decisão do serviço canadense de inteligência de destruir, no final da década de 1980, fitas com o resultado da escuta dos suspeitos, feita antes e depois dos atentados.