Numa das campanhas mais despolitizadas desde a redemocratização brasileira, intelectuais e representantes de movimentos sociais disseram quais são suas impressões diante do processo eleitoral em curso. A eleição para prefeito e vereador, em municípios de 20 a 50 mil habitantes, tem implicações importantes no cotidiano desses locais. Já os rumos orçamentários e políticos de grandes cidades como São Paulo - todas as capitais de Estado e outras da envergadura de Campinas - serão tomados a partir dessa votação.
A impressão da maioria dos entrevistados é que há em curso um processo de despolitização das campanhas eleitorais. Se a retomada da possibilidade de voto direto foi uma grande conquista frente à ditadura civil-militar, e, se há ainda importantes possibilidades e nuances entre os atuais partidos e candidatos, a irrelevância das eleições parece ganhar força na opinião de muitos eleitores, inclusive entre pessoas bastante envolvidas na transformação do país.
O esvaziamento do conteúdo político das eleições em detrimento da lógica marqueteira; a pasteurização do discurso e das práticas políticas de partidos e candidatos outrora identificados com os ideais da classe trabalhadora; bem como o descolamento de trajetórias individuais de políticos em relação a projetos coletivos; ou mesmo a resignada opção por candidatos específicos, baseada na identificação pessoal, foram algumas das inquietações que motivaram nossa breve enquete.
Para todos os entrevistados foram propostas as seguintes questões:
1– Para você, qual o valor e a relevância do voto hoje?
2– Atualmente, é o partido ou o candidato que tem mais peso no seu voto?
3– Como você avalia esse último processo/campanha eleitoral? Você participou de alguma campanha ou de alguma atividade eleitoral?
4– Em qual cidade e, se for o caso, para quem você vai votar? Qual a principal razão?
Leia algumas das respostas:
Maria Luisa Mendonça - Jornalista e membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
Espaços paralelos são mais interessantes
1 - Não podemos desprezar o processo de participação da sociedade na política, se realmente o contexto significar retirar as estruturas de poder do Estado das mãos das elites. Mas, atualmente no Brasil, de modo geral, o processo eleitoral é meramente formal e não implica mudanças significativas, especialmente se buscamos transformações estruturais.
2 - Novamente, essa decisão depende do contexto. Há uma grande confusão ideológica gerada pelo discurso dos partidos e candidatos, que se tornou praticamente homogêneo e pragmático. Por isso, o que sobra muitas vezes em uma eleição municipal é avaliar se alguns candidatos podem realizar pequenos avanços que, na prática, terão impacto no dia-a-dia da classe trabalhadora. Na atual conjuntura, não há horizonte utópico de transformações através do processo eleitoral.
3 - Os processos paralelos e populares de formação e mobilização têm sido mais interessantes, como a Campanha contra a Alca, a discussão sobre a reestatização da Vale do Rio Doce, a construção das propostas da Assembléia Popular para “O Brasil que Queremos” - temas que ajudam a politizar o debate.
4 - Com base no que disse antes, se há possibilidade de avanço das condições de vida para os trabalhadores, concretamente, vale a pena votar. Mas com a ressalva de que esse é um horizonte limitado. Esperamos que a conjuntura mude no Brasil e que novamente haja um momento onde se explicite a luta de classes e o avanço de um processo transformador nas estruturas de poder.
Leda Paulani - Economista e professora da FEA-USP
Confiança na pessoa
1 - Creio que a história recente vem nos mostrando que a relevância do voto vem ficando cada vez mais irrelevante, se me permitem o paradoxo. O Prof. Francisco de Oliveira tem defendido a tese da irrelevância da política frente à força avassaladora dos grandes interesses em sua comunhão com o Estado e em tempos de predomínio da lógica financeira. Concordo plenamente com ele.
2 - Por muitos anos votei em Partido (o PT), não olhando muito para o candidato e defendendo que este era o voto correto. Muitas vezes votei apenas no candidato majoritário, votando na legenda para os cargos do legislativo. Mas me parece que a democracia formal está desgastada e com ela os partidos enquanto forma de participação e transformação. Portanto, hoje, quando não anulo e voto em alguém, é porque confio pessoalmente no candidato ou candidata.
3 - Participei e me engajei na candidatura de uma vereadora do PSOL/SP.
4 - Voto em São Paulo. Para prefeito vou anular; para vereador vou votar nesta candidata. Ela vem de uma família muito bem postada e poderia ficar deitada no berço esplêndido onde nasceu. Mas não fez isso, nem nunca se encantou com as políticas sociais assistencialistas capitaneadas por ONGs ou pelo governo federal e apresentadas como se fossem a salvação da lavoura para dar cabo da desigualdade congênita do país. Ela participa de coletivos sobre ecologia urbana e sobre cultura livre, trabalha com os movimentos culturais da periferia de São Paulo, edita um blog chamado “outra política” e trabalhou dois anos no governo de Chávez, enfim, defende com coragem, firmeza e inteligência valores que eu sempre defendi e que buscam a construção da verdadeira cidadania (a verdadeira, não a midiática) e da verdadeira Nação.
Maurício Campos - Engenheiro e coordenador da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência/RJ
Até campanha pelo voto nulo atrasa a luta
1 -Não vejo relevância no processo eleitoral atual, bastante controlado pela classe dominante e os partidos institucionalizados. Enquanto os movimentos sociais não forem fortes e realmente independentes, pautados por um projeto de poder popular, não haverá nenhuma possibilidade de subverter o processo das eleições no sentido da construção de uma democracia de base. Pautar-se pelo calendário eleitoral hoje significa atrasar a luta e a organização popular. Isso é demonstrado mesmo nos países da América Latina onde o avanço popular foi aparentemente impulsionado por eleições. Na Venezuela e na Bolívia, por exemplo, a eleição de governos que entram em contradição com as oligarquias não foi fruto dos partidos que se dedicavam à atividade eleitoral e parlamentar, mas de movimentos de bases ou levantes contra a institucionalidade dominante.
2 - Desde 1990 não voto em nenhum partido ou candidato.
3 - Não participei de nenhuma atividade relacionada a eleições. Mesmo campanhas pelo voto nulo ou abstenção parecem-me hoje uma outra forma de pautar-se pelas eleições, ou seja, gastar tempo e recursos que devem ser melhor investidos diretamente nos movimentos populares.
4 - Mais uma vez não irei votar (irei justificar o voto ou simplesmente me abster e pagar a multa - menos de R$ 4, caso seja necessário). A razão está explicada anteriormente.
Plínio de Arruda Sampaio - Advogado, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA) e diretor do jornal Correio da Cidadania
Sem poder popular real as eleições são manipuladas
1 - O voto é importante porque constitui a manifestação do povo a respeito da política do Estado e a seleção das pessoas aptas a aplicá-las. Mas o processo eleitoral não é suficiente para possibilitar as transformações profundas que nossa sociedade requer. Sem organização popular, sem participação popular efetiva, sem poder
popular real, as eleições podem ser manipuladas e servir para manter a oligarquia no poder.
2 - Sempre militei em um partido político. Considero a proposta partidária o criterio fundamental para dar o voto. Claro que a pessoa do candidato também conta, mas não creio que deva ser o critério decisivo. Até porque uma boa pessoa em um partido errado, não pode representar o que eu penso.
3 - Nesta eleição para prefeito houve um conluio entre os candidatos da burguesia e a mídia para não colocar em discussão as causas reais dos problemas da cidade. O debato dito "técnico-gerencial" é uma forma de enganar o eleitor.
4 - Vou votar em São Paulo e votarei em Ivan Valente, porque é o candidato mais preparado para exercer o cargo e mais comprometido com os interesses do povo pobre da cidade.
Dom Demétrio Valentini - Bispo de Jales (SP) e presidente da Cáritas Brasileira
Compra de votos cai, mas a apatia cresce
1 - Consolidar a prática democrática e, aos poucos, depurar o exercício da política, aprimorando os critérios dos eleitores para ir eliminando os que buscam cargos para se apropriar dos recursos públicos.
2 - Claro que o candidato é importante, mas vejo a urgência de termos mais coerência partidária, ao nível nacional, por isso levo em conta também o partido.
3 - O fato mais positivo é que vai acabando a compra de votos, coibida com rigor pela lei eleitoral, que tem nesse item seu maior mérito. Por outro lado, fica a inquietação de conferir se a aparente apatia dos eleitores nessa campanha não é um sinal de frustração dos eleitores diante dos escândalos políticos revelados nos últimos anos.
4 - Vou votar em Jales, interior de São Paulo, cumprindo minha obrigação cívica!
Virgínia Fontes - Professora de Serviço Social na UFF
Voto em prol das lutas anticapitalistas
1 - A conquista do direito ao voto resulta de longa luta popular e antiditatorial, não resultando de nenhuma concessão dos poderosos. Daí sua permanente importância. No entanto, apenas eleições não asseguram sequer as conquistas anteriores mais significativas, pois a institucionalização eleitoral capitalista tende a consolidar um formato oligopólico, alijando de qualquer possibilidade eleitoral substantiva os que efetivamente propugnam mudanças substantivas. Por exemplo, em que pese uma enorme crise capitalista internacional, cujo custo será lançado nos ombros dos setores populares, ela parece inexistir na atual campanha. Assim, o voto efetivamente aparece como irrelevante.
2 - Sempre voto sobretudo no partido, o qual deve assegurar um programa claramente anticapitalista, um compromisso social e militante, um comportamento ético-político contra-hegemônico. No interior dos partidos, há também diferenças entre os candidatos e seleciono aqueles cujo compromisso com as questões populares é permanente, que mantêm seus vínculos com as bases e não se deixam corromper pelas benesses no poder, atuando em prol das lutas anticapitalistas. Há três partidos principais na atualidade com essa configuração, embora com diferenças entre eles: PCB, PSOL e PSTU.
3 - A campanha eleitoral, em seu conjunto, foi excessivamente limitada às questões locais e pontuais e fortemente marcada pelas desigualdades econômicas, pois grandes partidos tinham muito mais inserções pagas. Houve censura real contra alguns partidos e candidatos anti-capitalistas, com debates pautados apenas pelos pontos nas pesquisas de opinião definidas pela mídia oligopólica. Predominou nas propagandas acentuado tom pragmático, imediatista e oportunista. Participei de diversas manifestações em prol de alguns candidatos, cujos partidos e trajetórias estão firmemente comprometidos com as lutas populares, operárias e anticapitalistas.
4 - Voto no Rio de Janeiro, cidade onde o descrédito popular na política demonstra o grau da oligopolização e de oportunismo. Votarei para prefeito no candidato da coligação PSOL/PSTU (Chico Alencar). Para vereador, há 3 candidatos comprometidos com as lutas populares: um do PSTU, um do PSOL e outro do PCB.
Colaborou Renato Godoy de Toledo, da AG. Brasil de Fato (BdF)