Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Caminhos do futuro

Por José Luís Fiori - Existem pelo menos duas maneiras de olhar para o futuro do sistema mundial, neste início de 2005. A primeira, mais conjuntural, a partir da política externa norte-americana, como fizemos no nosso artigo sobre O poder americano, publicado na Agência Carta Maior em 5 de novembro de 2004. (Leia Mais)

Terça, 04 de Janeiro de 2005 às 09:24, por: CdB

"É bom lembrar que a esperança e a previsão, embora inseparáveis, não são a mesma coisa (...) e toda previsão sobre o mundo real tem que repousar em algum tipo de inferência sobre o futuro a partir daquilo que aconteceu no passado, ou seja, a partir da história".
Eric Hobsbawm, Sobre a História, 1998: p: 67.

Existem pelo menos duas maneiras de olhar para o futuro do sistema mundial, neste início de 2005. A primeira, mais conjuntural, a partir da política externa norte-americana, como fizemos no nosso artigo sobre O poder americano, publicado na Agência Carta Maior em 5 de novembro de 2004. Mas existe também uma segunda forma de especular sobre o futuro, de tipo mais estrutural, a partir das tendências de longo prazo do próprio Sistema Mundial submetido à hierarquia das Grandes Potências, e neste momento, sob o domínio inquestionável dos Estados Unidos.

Este segundo caminho requer um recuo no tempo e na história do Sistema Mundial, e uma análise mais detalhada da contradição que foi reposta, nestas últimas décadas, pela expansão do poder dos Estados Unidos. Entre uma força que empurra a potencia líder e todo o Sistema Mundial de poder, na direção de um "poder global" e de um "império mundial", e por outro lado, a força que o contém, fortalecendo recorrentemente o poder territorial, dos estados e capitais nacionais.

Pois bem, não há dúvida de que no início do século 21 os Estados Unidos chegaram, mais perto do que nunca, da possibilidade de constituição de um "império mundial". Mas se o mundo chegasse a este ponto, e se constituísse um império global, isto significaria - ao mesmo tempo e por definição - o fim do sistema político interestatal. E o mais provável, do ponto de vista econômico, que também signifique o fim do capitalismo.

Numa linguagem mais próxima da física e da termodinâmica, do que da dialética hegeliana, se pode dizer que a expansão do poder global, na direção do império mundial, é ao mesmo tempo uma força que levaria à entropia do Sistema Mundial, ao provocar sua homogeneização interna e o desaparecimento das hierarquias e conflitos responsáveis pelo dinamismo e pela ordem do próprio sistema.

Porque não se consegue ver, no presente, nenhum sinal efetivo de um novo mundo ou sistema mais pacífico ou igualitário, que pudesse substituir ou suceder a um possível ou eventual "império mundial". Além disto, não se consegue identificar, na história, a existência de Estados que tenham sido ou sejam portadores de algum projeto que aponte para o "mais-além" do Sistema Mundial. Todos se movem com os mesmos objetivos, e suas diferenças internas, de regime político e organização social, não parecem ter maior impacto no seu comportamento internacional, pelo menos nos momentos decisivos da história.

No mundo das Grandes Potências, e de todos os demais Estados e economias nacionais, portanto, não existem bons e maus, nem melhores ou piores, em termos absolutos. O que existe são Estados que, em determinados momentos da história, assumem posições mais ou menos favoráveis à paz e à convergência das riquezas nacionais.

Mas, mesmo nestes casos, há que distinguir a retórica ideológica dos comportamentos concretos e, além disso, estar atento para as mudanças de comportamento de um mesmo Estado, dependendo do momento e da posição que estiver ocupando dentro da hierarquia de poder e riqueza internacionais. Quase todas as Grandes Potências já foram colonialistas e anticolonialistas, pacifistas e belicistas, liberais e mercantilistas, e quase todas elas, além disto, já mudaram de posição várias vezes ao longo da história.

Neste contexto, todas as previsões, liberais ou marxistas, do fim dos Estados ou das economias nacionais, ou mesmo da formação de algum tipo de federação cosmopolita e pacífica, são utopias, com toda a dignidade das utopias que partem de argumentos éticos e expectativas generosas, mas são idéias ou projetos que não têm nenhum apoio objeti

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