Rio de Janeiro, 18 de Maio de 2026

Camarotes da Sapucaí dão um show de desperdício de comida

Terça, 04 de Março de 2003 às 14:30, por: CdB

No país do Fome Zero, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que todos os esforços sejam concentrados no combate à miséria, a quantidade de comida que sobra nos camarotes do Sambódromo e vai direto para o lixo "é de cortar o coração". O lamento, na madrugada desta terça-feira, pouco antes de ser servido o jantar aos foliões, foi do maître responsável pelo setor 2C, Heleno Camilo de Oliveira, de 52 anos, 25 de profissão. Heleno calcula que pelo menos quatro mil dos seis mil pratos servidos por noite tenham sobras de comida jogadas fora. "Imagina eu, que sou nordestino, vendo isso. E depois vêm falar de Fome Zero! Imagina quanta gente poderia estar comendo esse frango, essa carne de primeira qualidade", disse, enquanto ajudava a organizar o balcão da enorme cozinha que abastece os camarotes. Em menos de 15 minutos, dezenas de pratos, alguns praticamente intactos, foram jogados no lixo por auxiliares como Maurília da Silva Souza, como presenciou a reportagem. "A gente sente, né? As pessoas passando necessidade e aqui tanta fartura. Mas, com esse calor, acabam não comendo o jantar", disse Maurília. O menu do segundo dia de desfiles do Grupo Especial, preparado e servido pelo buffet Scala, do empresário espanhol Chico Recarey, era frango ao creme de champignon ou escalope ao champignon com arroz de amêndoas. Tábuas de frios, frutas importadas e bandejas de comida japonesa cuidadosamente preparadas em uma sala refrigerada também chegavam sem parar ao balcão - e logo eram jogadas nos latões de lixo. "Não tem como aproveitar porque já foi levado ao camarote, as pessoas já mexeram. É impossível servir de novo. São pedaços inteiros que vão para o lixo sem serem tocados", voltou a lamentar o paraibano Heleno. Ao lado de Maurília, a colega aproveitou para guardar em um saco plástico pedaços de frango e filé. Tirou com cuidado grãos de arroz e molho e empilhou a carne para levar para casa ao final do trabalho, já com o dia claro. "Para algumas delas, é uma festa levar a comida para casa. Mas é pouco. A grande maioria vai mesmo para o lixo", disse Heleno, que há 12 anos trabalha na correria do atendimento aos camarotes no carnaval. Ele também é maître em um restaurante de Ipanema, na zona sul carioca. "Mas lá sobra muito pouco porque é caro, as pessoas valorizam", comenta, lembrando que na Passarela do Samba boa parte do público do camarote é formada por convidados de grandes empresas. Para o maître, só uma "conscientização" dos foliões poderá fazer com que, no futuro, evitem tanto desperdício. "Eles fazem o tipo não-estou-nem-aí, o camarote é pago e acabou. Mas num país com tanta gente passando fome é o maior absurdo", criticou Heleno. "Você precisa ver quando tem paella (prato típico espanhol, que mistura arroz, frutos do mar e carnes). Tudo de primeira qualidade, preparado com o maior cuidado. Mas não comem quase e volta tudo para cá. É de dar dó." Lançado como prioridade absoluta do governo petista, o projeto Fome Zero enfrenta, além de problemas de organização do pagamento direto de dinheiro para as famílias pobres comprarem comida, a falta de estrutura para distribuição de alimentos doados. Ainda não se sabe como estocar e providenciar transporte para as doações, geralmente feitas nos grandes centros urbanos, chegarem o mais rápido possível aos pobres, principalmente do Nordeste. O governo também estuda uma saída para aproveitar a comida que sobra em restaurantes. Este ano, a área social, especialmente o combate à pobreza, esteve no enredo de várias escolas do Grupo Especial. O carnavalesco Joãosinho Trinta, da Grande Rio, chegou a levar para a avenida a fome, sob forma de um condenado à morte na cadeira elétrica. "Esse desperdício aqui no carnaval deveria servir de alerta", disse o maître, por volta das 2 horas da manhã, sabendo que até as 7 horas ainda veria muita comida boa embrulhada nos sacos e recolhida pelos garis da Passarela do Samba.

Tags:
Edições digital e impressa