Assisti aos debates sobre a votação da medida provisória que estabelecia o salário mínimo na Câmara Federal, na manhã do dia 23 de junho, pela TV Câmara. Confesso que o meu limite foi ver o deputado José Roberto Arruda, do PFL do Distrito Federal, pedir que se votasse em favor da proposta vinda do Senado, de por o salário mínimo em R$ 275, em homenagem à memória de Leonel Brizola. Acho que até vislumbrei a imagem do ex-governador sorrindo ironicamente no canto esquerdo do céu que vislumbro de minha janela.
Como o resultado já estava claro, com a vitória da proposta do governo, troquei de canal. O meu cérebro já estava exausto, diante do espetáculo explícito de contorcionismo verbal que eu vinha presenciando.
O espetáculo começou antes, e não foi só verbal, pois teve também o concurso de imagens explícitas, como a da senadora Heloísa Helena e o senador Antonio Carlos Magalhães, em meio a outros, comemorando o resultado que derrotava o governo na Câmara Alta.
Continuou, por exemplo, com o ministro Aldo Rebelo (Coordenação Política) dizendo que o Senado votara por R$ 275 por ser mais conservador, enquanto a Câmara votaria por R$ 260 por ser mais progressista.
Na manhã de 23 uns tentavam explicar porque estavam dizendo o que os outros diziam até dois anos atrás, enquanto os outros explicavam convictamente porque repetiam o que os uns tinham dito também até dois anos atrás. Uns e outros e outros e uns acusavam uns e outros e outros e uns de terem sido irresponsáveis quando diziam o que uns e outros e outros e uns tinham dito até dois anos atrás.
PSDB e PFL batiam feio na tecla de que o Planalto arrochava salários em troca de programas beneficentes e assistenciais; os governistas retrucavam com veemência que os adversários arrocharam salários durante catorze anos, contando os de Collor e Itamar, e que agora queriam resolver tudo em 2004.
No meio da insensatez, que se manifestava por vezes em altos brados, em canções que os oposicionistas cantavam, em bandeiras brandidas em tom de chacota ou ameaça, houve uma observação de sensatez (dita primeiro pelo deputado Beto Albuquerque - PSB-RS): os partidos que votaram R$ 275 como salário mínimo estão agora moralmente constrangidos a instituir tal valor nos Estados em que governam.
Atualmente há quatro Estados onde o salário mínimo é maior do que o adotado pelo conjunto da federação: Rio Grande do Sul (onde é de R$ 338), Rio de Janeiro, Alagoas e Rio Grande do Norte. Os Estados têm poder para isso.
Em que pesem as peculiaridades da Câmara Baixa, não há como fugir da constatação de que foi o Palácio do Planalto, aferrando-se aos R$ 260, que criou este teatro do absurdo ou esta nau de insensatez. Não é preciso ser mago nem ter bola de cristal para saber que no interior mesmo do Executivo este valor para o mínimo só passou depois de uma luta surda mas algo feroz, em que houve sim vencidos e vencedores, feridas e luxações.
Agora caiu o pano sobre a questão do mínimo em 2004. Terminaram a comédia de erros, a farsa dos partidos com seus sinais históricos trocados, a ópera bufa das acusações pelo passado comprometedor onde as posições eram invertidas, o drama de se cantar vitória ou chorar derrota sobre quantias que todos, em uníssono, reconheciam como irrisórias.
A tragédia do povo brasileiro, essa continua; pois para além da questão dos R$ 15 a mais ou a menos, o país continua sem sequer a perspectiva de uma política salarial condizente com algum grau de modernidade e civilização.
Esta é de novo, a questão: falta política, falta dimensão republicana, falta res publica na anima dos contendores. Sobram reivindicações e acusações de momento, e perspectivas imediatas de uma administração de pernas curtas, visão míope e que pode começar a se fantasiar com o nariz de Pinóquio.
Se os conservadores de ontem (agora na oposição) estão inventando um passado combativo ao lado do povo brasileiro que nunca exi