Uma pequena cidade do norte de Minas Gerais concentra o maior número de produtores de cachaça de alambique do país. Com mais de 50 marcas registradas, a pinga de Salinas está entre as artesanais mais vendidas no mercado interno e se prepara para ganhar o exterior, segundo a Associação de Produtores de Cachaça de Salinas (Apacs). Distante 600 quilômetros de Belo Horizonte, a cidade intitulada capital mundial da cachaça tem 37,3 mil habitantes e emprega cerca de 1,5 mil na produção de 2 milhões de litros por ano da bebida, podendo superar 2,5 mil empregos na safra da cana-de-açúcar. Em impostos, o setor contribui com mais de R$ 2,5 milhões.
– Considerando que a cachaça é um produto artesanal, ocupa um espaço privilegiado. Do ponto de vista da agroindústria, é a principal fonte de arrecadação. Mas tende a ser a primeira, no próximo ano. Com novos negócios e com o aumento da produção, temos a expectativa de ampliar – afirma o prefeito de Salinas, José Antônio Prates.
Para ampliar as vendas, a cidade organiza, entre os dias 17 e 19 deste mês, o 8º Festival Mundial da Cachaça, evento que deve movimentar entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões e atrair de cerca de 10 mil pessoas, entre turistas e empresários. De acordo com a organização da feira, embora empresas da cidade já exportem, as vendas para o exterior ainda não são o forte do evento.
– Pode ser que venha gente de fora, estamos nos preparando. Mas, por enquanto, nosso foco é o mercado interno. Vamos receber grandes distribuidores nacionais, de supermercados. Contamos com a agenda de relacionamento do Sebrae – informou a responsável pelo festival, Renata Rodrigues.
Segundo a Associação de Produtores de Cachaça de Salinas, para abrir as portas do mercado internacional de uma vez, o setor está se adequando para conseguir um selo de rastreabilidade, concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), comprovando a qualidade e a origem da bebida. Técnicos trabalham para ajustar a produção às exigências normativas.
– Temos que ter esse selo, que garante que o processo de produção respeita o meio ambiente, tem boas práticas agrícolas, é artesanal, feito com fermento caipira e destilado em alambique de cobre – explicou o presidente da associação, Nivaldo Gonçalves.
Para incentivar os empresários, o Instituto Brasileiro de Cachaça (Ibrac) destaca que as pingas de alambique têm grande potencial.
– O consumidor internacional ainda não tem o hábito de tomar a cachaça pura, prefere em coquetéis como a caipirinha. Estamos tentando mudar isso por meio de campanhas – disse o diretor executivo da instituição, Carlos Lima.
Segundo o Ibrac, a cachaça atrai a cada ano mais compradores fora do Brasil. As exportações da bebida cresceram 18% entre 2007 e 2008. No ano passado, o valor arrecadado com a venda do produto, enviado para cerca de 55 países, chegou a U$ 16 milhões.
Escolha pelo sabor
Os especialistas dizem que pelo sabor se escolhe uma boa pinga. Mas reforçam que a origem da bebida também conta. Da cidade de Salinas, no Vale do Jequitinhonha, no interior de Minas Gerais, vêm as cachaças artesanais mais vendidas e mais caras do país, segundo distribuidores do próprio estado e do Rio de Janeiro. Famoso no sertão mineiro, o produto atrai todos os anos distribuidores de vários Estados para o Festival Mundial da Cachaça, com a oitava edição marcada para este final de semana. O sucesso da feira aumenta a cada ano e é atribuído à qualidade das pingas salinenses. Este ano, o evento deve movimentar até R$ 3 milhões.
Muitos atribuem o sabor da pinga de Salinas ao solo fértil (que não precisaria de adubo), à fermentação e ao processo de envelhecimento. De acordo com a Associação de Produtores de Cachaça de Salinas (Apacs), vários fatores fazem da cidade líder no segmento.
– Pesquisas mostram que algumas leveduras (fungos responsáveis pela fermentação) diferenciam nosso produto. Também tem a questão do Sol, devido à altitude das nossas terras, onde estão os canaviais, e até mesmo a composição do solo – avalia o presidente da Apacs, Nivaldo Gonçalves.
Dono de umas das marcas mais tradicionais da região, a Havana, Oswaldo Santiago diz que o produto não tem segredo. Desde a década de 40 a cachaça é produzida com as mesmas técnicas e é uma das mais caras do Brasil (custa entre R$ 300 e R$ 700). Para Santiago, o mistério está mesmo na terra.
– O nosso segredo é asseio, asseio, asseio. Cuidado com os depósitos, com o canavial, com o envasamento e o armazenamento, de mais de dez anos. Mas a qualidade do solo influi, da cana influi. Na verdade, tudo aqui influi – disse o proprietário da Havana, declarada patrimônio imaterial de Salinas em 2006.
Representante de um dos maiores fabricantes individuais de pinga artesanal do país, Renata Rodrigues, da Seleta, confirma que a qualidade da bebida salinense está ligada ao cuidado com a produção e às condições do clima e do solo. A Seleta custa entre R$ 10 e R$ 30 e está entre as pingas mais vendidas.
– Acho que (o segredo) está na localização geográfica. Existe até um estudo sobre isso. Querem ver, por exemplo, por que no norte a cachaça sai de um jeito e, no sul, num raio de 40 quilômetros de diferença, a cachaça sai de outro – comentou Renata.
Para pesquisar o assunto, a cidade criou o primeiro curso de nível superior em tecnologia da cachaça, oferecido temporariamente pelo Instituto Federal de Educação Tecnológica (Ifet). A primeira turma se forma no final de 2009. Para divulgar informações sobre a origem da bebida, que se confunde com a própria história do município, está sendo construído o Museu da Cachaça, uma iniciativa da prefeitura em parceria com o governo estadual. O prédio e o acervo devem ser entregues em 2010.