Os novos diretores de cinema de Brasil e Argentina compartilham a busca por recuperar as identidades locais frente a hegemonia do cinema proveniente dos Estados Unidos, depois de anos de difícil sobrevivência, declarou à EFE o diretor Cacá Diegues.
— Há uma coincidência da realidade brasileira e da argentina. Estamos nos recuperando de uma situação de dependência econômica, de hegemonia do cinema americano e de conformismo em relação a essa hegemonia — disse Diegues, um dos cineastas mais prestigiados do cinema brasileiro.
— Agora sinto que tanto no Brasil como na Argentina, há uma vontade de conhecer sua identidade, de recuperar o tempo perdido nos últimos 20 anos em uma nova direção — acrescentou.
O diretor de 63 anos, viajou ao país para participar do Primeiro grande festival de cinema brasileiro, de 7 a 13 de agosto na capital argentina. Diegues, diretor de cinema, crítico, poeta e jornalista, foi um dos líderes do movimento Cinema Novo da década de 1960, época na qual dirigiu alguns dos mais premiados e bem-sucedidos filmes do Brasil.
O diretor explicou que chamam de "novo" cinema brasileiro a produção dos últimos anos, já que uma severa crise econômica somada a uma quase nula ajuda do Estado levou a que se deixasse de filmar entre 1980 e 1995.
— O novo cinema é somente uma idéia de que o cinema brasileiro volta. O mais importante desta nova fase é que não é um gênero de cinema, mas é uma cinematografia nacional com todas as tendências, todas as direções e estéticas — contou Diegues.
— Há veteranos como eu que voltam a filmar e uma nova geração de diretores que vêm de todas as regiões do Brasil, que têm muito a ver com a geração do Cinema Novo, mas não é um dogma e sim um respeito e uma atenção especial por esse momento da história do cinema brasileiro — acrescentou.
Para Diegues, a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do país ajudou a recuperar a esperança, o que considera um incentivo importante para a criação artística.
— A assenção de Lula marca um momento importantíssimo na história do Brasil, o momento em que tudo começa a mudar, a esperança que retorna ao coração dos brasileiros — assinalou.
Apesar de serem países vizinhos, a Argentina não tem acesso a muitos filmes brasileiros e vice-versa, situação que começará a mudar depois que ambos os governos assinarem em meados de agosto em Brasília um acordo de cooperação que permitirá distribuir oito filmes de cada nação na outra.
No entanto, Diegues contou que os poucos filmes argentinos que chegaram aos cinemas do Brasil, como O filho da namorada e Kamchatka foram "muito bem-sucedidos".
— Se começa a conhecer o novo cinema argentino no Brasil, sobretudo entre os jovens. Os problemas que temos são mais ou menos os mesmos. Não há muitas diferenças entre um jovem em Buenos Aires e um em São Paulo ou no Rio de Janeiro — expressou.
Diegues apresentará no festival de Buenos Aires seu filme Deus é brasileiro (2002), que conta a história de um Deus que planeja entrar de férias e viaja para buscar um substituto no Brasil, um país tão religioso que em todos os cantos tem um santo reconhecido oficialmente.
Uma vez ali, Deus percorre o país junto com Taóca, um pescador que vê neste encontro a grande oportunidade de se livrar de seus problemas pessoais.
— Estou cheio de esperanças, queria muitíssimo que meu filme tivesse um papel importante nesta colaboração entre Argentina e Brasil e espero que o público argentino goste — disse.
Cacá Diegues: 'Cinema brasileiro busca recuperar sua identidade'
Sábado, 09 de Agosto de 2003 às 16:01, por: CdB