Todos tinham talento, porém Bussunda era o que mais se aproximava da genialidade
11/01/2011
Leandro Konder
É bem conhecida a importância do humor na cultura brasileira.
Na Antiguidade, as pessoas achavam que o corpo humano precisava de quatro humores: a bílis negra para o fígado, a bílis amarela para o pulmão, o humor vermelho do sangue (imprescindível ao coração) e um quarto elemento, enigmático, que às vezes era aceito, às vezes era recusado, e era mencionado apenas como o humor – sem sobrenome.
Filosofia, literatura, música e política frequentemente se tocam, se misturam. Na Grécia antiga, os livros de Aristóteles justificavam as comédias de Aristófanes que faziam o público rir às gargalhadas. Muita gente, porém, não gostava.
Duas tendências, em geral, se manifestam, desde aquela época, na história do humor. A gente verifica que os engraçados em momentos e situações distintas nos fazem rir de maneira diferente. Surge o humor de esquerda (Barão de Itararé, Millor Fernandes) e o humor de direita (Delfim Netto, Mario Henrique Simonsen).
A partir da segunda metade do século 20, o humor de esquerda liderou um saudável movimento inovador, ousado. O Pasquim “bombou”, teve uma enorme repercussão. O veterano Jaguar, Sergio Porto (Stanislau Ponte Preta), Ivan Lessa, os desenhistas Cassio Loredano, os irmãos Chico e Paulo Caruso, Chico Buarque e Caetano Veloso e uma legião de nomes que enriqueceram a cultura brasileira.
Tenho a impressão de que nos falta, ainda, uma análise do fenômeno “Casseta e Planeta”, publicação que nasceu surpreendendo com o radicalismo de suas posições.
Um grupo de jovens de classe média, mergulhados num processo de resistência que tinha elementos políticos, deixava claro que o humor – refletindo a crise do Estado e dos Costumes – aparecia como indicador de uma reviravolta no riso dos brasileiros.
Esses jovens reanimavam métodos polêmicos que, na época, eram ameaçados de repressão. Na tradição nacional, as polêmicas giravam em torno de como era pensada e praticada a relação entre o indivíduo independente e a coletividade efetiva.
Quando os conflitos se multiplicavam, os jovens se divertiam às custas deles. Um dos garotos, respondendo a uma pergunta de um jornalista que gostaria de saber onde se situava o consenso, esclareceu: “ele varia historicamente. No momento atual estamos todos consensualmente dispostos a dar uma surra no dissidente”.
O “dissidente”, no caso, era Marcelo Madureira. E o proponente da surra era Claudio Manoel. O grupo era constituído de gente moça, que se unia, mas não abria mão da autonomia intelectual. Todos tinham talento, porém Bussunda era o que mais se aproximava da genialidade.
Desde cedo, Bussunda se serviu da psicanálise como uma das fontes de seu pensamento (sua mãe era psicanalista). Ele desconfiava das iniciativas políticas que se baseavam em sistemas teóricos. Em campanha eleitoral, sugeriu a seus colegas na faculdade, que não votassem em políticos, porque eram corruptos. Lançou a candidatura à Câmara dos Deputados do macaco Tião. Argumentava que o macaco é um político que já estava onde todos estarão: atrás das grades.
De Bussunda partiram atos isolados de rebeldia anticapitalista. Ele e seus companheiros combatiam debochadamente as ideias conservadoras de Itamar Franco, Antonio Carlos (Fraudalhães) Magalhães, Paulo Maluf. Uma vez, Tim Maia aceitou o convite para participar de um espetáculo do grupo; aceitou e não compareceu. Bussunda não se assustou com a ausência do cantor e interpretou-o, com todo seu volume e com toda a sua voz. Fez sucesso.
Os garotos de Casseta e Planeta há bastante tempo não são mais garotos. Talvez tenha chegado a hora de repensar o caminho percorrido e de analisar os conflitos atuais. O que não se pode é tropeçar nas diferenças importantes que se formaram a partir dos gregos. Os irreverentes não têm problemas no plano dos humores que correspondem à demanda de sangue, pulmão e fígado. É possível, no entanto, que estejam enrolados no humor sem sobrenome.
Leandro Konder é colunista semanal do Brasil de Fato.
Originalmente publicado na edição 408 do Brasil de Fato.