Numa manobra surpreendente e certamente perigosa, realizada a menos de um ano das eleições de 2004, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, fez uma visita não-anunciada às tropas americanas em Bagdá nesta quinta-feira, por ocasião do Dia de Ação de Graças. Durante duas horas e meia, Bush aproveitou o mais tradicional feriado americano para elevar o moral dos soldados, assolado pelas duras e violentas baixas sofridas diariamente pelas tropas de ocupação.
Foi a primeira visita de um presidente dos EUA ao país do Golfo Pérsico. Seu pai, o ex-presidente George Bush, visitou tropas americanas estacionadas no Kuwait em 1990, também no Dia de Ação de Graças, véspera do início da Guerra do Golfo.
A missão de Bush foi mantida em absoluto sigilo e, apesar de se imaginar que tenha exigido um enorme aparato de segurança, a população e jornalistas foram incapazes de perceber qualquer mudança na rotina de Bagdá. A Casa Branca havia informado que Bush passaria o feriado em seu rancho no Texas.
A aparição do presidente, num salão montado no Aeroporto Internacional de Bagdá, foi precedida por uma apresentação quase teatral protagonizada pelo administrador civil dos EUA no Iraque, Paul Bremer, e pelo general Ricardo Sánchez.
Diante de 600 militares reunidos para a ceia de Ação de Graças, Bremer afirmou que estava encarregado de transmitir a eles uma mensagem do presidente dos EUA, mas que, em vez disso, daria a honra à maior autoridade presente.
Neste exato momento, Bush, usando uma jaqueta militar, entra pela porta lateral para delírio dos militares, que pulam e explodem em urros e aplausos calorosos. A ovação durou vários minutos, durante os quais Bush tentou claramente conter as lágrimas.
— Eu só estava procurando uma refeição quente em algum lugar. Obrigada por me convidarem para jantar. Não posso imaginar um grupo mais legal de camaradas com quem passar o jantar de Ação de Graças — disse o presidente aos militares extasiados.
— Trago uma mensagem em nome dos Estados Unidos: nós agradecemos a vocês pelo seu serviço, nós estamos orgulhosos de vocês e o país os apóia solidamente — disse o presidente a 600 soldados chocados em ver o presidente aparecer de uma porta lateral do Hall do Aeroporto Internacional de Bagdá.
Há seis meses, em outra visita controversa a tropas, daquela vez a um porta-aviões, Bush proclamou o fim das grandes operações de combate no Iraque. Desde então, as forças de ocupação enfrentam crescentes operações de guerrilha, em uma insurgência que já custou a vida de quase 200 soldados.
No discurso desta quinta-feira às tropas, Bush prometeu manter o curso da ocupação.
— Vocês estão envolvidos em uma missão difícil. Aqueles que atacam as forças da nossa coalizão e matam iraquianos inocentes estão testando nossa vontade. Eles esperam que corramos — disse Bush.
— Nós não cruzamos centenas de milhas até o coração do Iraque, pagamos o preço amargo das baixas, derrotamos um ditador brutal e libertamos 25 milhões de pessoas apenas para bater em retirada por causa de um bando de criminosos e assassinos. Vamos prevalecer. Vamos vencer porque nossa causa é justa. Vamos vencer por que vamos continuar na ofensiva.
Bush, com os olhos cheios d'água.
Depois de discursar, Bush cumprimentou vários soldados e entrou na fila para ajudar a servir-lhes o jantar. É uma tradição que o jantar do Dia de Ação de Graças das tropas seja servido por seus superiores. Além do encontro com soldados, Bush também se reuniu com quatro integrantes do Conselho Governante Iraquiano, a entidade nomeada pelos EUA que administra o país.
Bush visita as tropas do Iraque de surpresa
Sexta, 28 de Novembro de 2003 às 07:17, por: CdB