Que ninguém procure deduzir a entrega formal da Presidência do Iraque a um iraquiano escolhido pelos EUA - antecipada em 48 horas para não ser apagada por atentados programados para o dia 30 - como resultado da normalização do país. Nunca a situação interna esteve tão fora de controle - como a estatística de ações opositoras e vítimas de atentados demonstra - e nunca a situação econômica esteve tão comprometida - com a exportação de petróleo bloqueada pelos atentados às instalações petrolíferas.
Então por que, justamente em um momento assim, o interventor norte-americano se retira e faz entrega da suposta soberania a um iraquiano? Simplesmente porque todos os comportamentos do governo Bush, desde o ano passado, têm de ser vistos na ótica do calendário eleitoral norte-americano, do monitoramento do comportamento do eleitorado - em particular daquele situado nos pouquíssimos Estados onde se decidirá a eleição presidencial de novembro deste ano.
A fixação da data de 30 de junho faz parte do calendário eleitoral do Partido Republicano, e não do destino dos iraquianos e do Iraque como país. Foi fixada em uma semana de dezembro do ano passado, quando se sucederam vários atentados a instalações das tropas de ocupação e, inclusive, das Nações Unidas, com o objetivo de reforçar - no estilo texano - que os indomáveis norte-americanos não se vergam diante das dificuldades e mantêm sua vontade original de levar adiante o processo de "normalização" da ocupação do Iraque.
Daí que a primeira medida, definida previamente pelas forças de ocupação, é que o "novo governo" solicite a essas forças - única sustentação desse "governo" - que continuem no país, sem o que eles mesmos não existiriam, nem como governo, nem como seres vivos.
Da mesma forma que a convenção do Partido Republicano para confirmar a candidatura de Bush à reeleição se fará em Nova York no dia 11 de setembro - com bombeiros e as famílias das vítimas que ainda se dispuserem a participar da pantomima. Tudo premeditadamente programado pelo marketing da campanha de Bush à reeleição.
Então nada de outras discussões que não possam ser respondidas por esta afirmação: São as eleições, estúpido! O resto, que se dane, contanto que as firmas ligadas a Dick Cheney possam seguir "reconstruindo" o Iraque. Que as outras corporações continuem dividindo o governo da maior potência do mundo. Que se dane o povo do Iraque, contanto que Bush ganhe as eleições de novembro e que seu racho continue a receber a visita da imprensa internacional para ver o caubói texano exibir sua truculência e sua ignorância como características do governante da época das "guerras infinitas".
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".
Bush de olho na eleição
Por Emir Sader - Que ninguém interprete a entrega da Presidência do Iraque a um iraquiano como sinal da normalização do país. Nunca a situação esteve tão fora de controle. A explicação está nas eleições dos EUA, em novembro deste ano.. (Leia Mais)
Quinta, 01 de Julho de 2004 às 08:27, por: CdB