Rio de Janeiro, 01 de Janeiro de 2026

Bush chega tarde e apresenta pouco à América Latina

Sexta, 09 de Março de 2007 às 10:11, por: CdB

O presidente George W. Bush chegou a São Paulo, primeira parada de uma longa viagem internacional de sete dias. Não estão previstas escalas em Bagdá e Cabul. A mudança de ares poderá ser saudável para um ocupante de uma Casa Branca que vive uma sensação de cerco. Como disse o veterano professor de relações internacionais Abraham Lowenthal, é uma viagem à América Latina "sem grandes custos nem riscos".

É verdade que Bush não poderá dar o que os países mais importantes nesta viagem desejam. Ele traz na bagagem alguns pacotes assistencialistas modestos e em parte reciclados, além de memorandos de entendimentos. Como antecipou o jornal Washington Post em editorial na quarta-feira, para o Brasil do presidente Lula o governo Bush não tem como oferecer uma redução de barreiras comerciais e, em particular, a remoção das tarifas sobre as importações de etanol.

No caso do México de Felipe Calderón, falta músculo político para o presidente americano concretizar uma reforma da política de imigração.

De qualquer forma, existe esta disposição de última hora, ou de final de mandato, para revitalizar as relações dos EUA com a América Latina. No lance retórico do subsecretário de Estado Nicholas Burns, 2007 será o "ano do engajamento" com o resto do continente, quando o foco dos americanos está no desengajamento do Iraque. Na sua primeira campanha às eleições presidenciais no ano 2000, Bush prometera que a América Latina seria um "compromisso fundamental de meu governo".

Mas atentados, guerras e, a rigor, a ausência de grandes perigos no chamado quintal dos EUA fizeram com que Bush não cumprisse a promessa.Pegar agora a trilha latino-americana anteriormente prometida faz sentido quando o terreno está minado nas áreas estratégicas mais importantes para os EUA. Claro que é ilusão imaginar que Bush tenha como escapar das explosões do Iraque e Afeganistão onde quer que esteja. E o terreno está minado também ali mesmo em Washington.

O mais recente e devastador golpe à credibilidade da Casa Branca foi a condenação na terça-feira de Lewis Scooter Libby, ex-chefe do gabinete do vice-presidente Dick Cheney, em um julgamento bizantino relacionado a investigações sobre as razões que levaram os EUA à guerra no Iraque.

Acossados, presidentes norte-americanos (ou em qualquer parte) tentam mudar de rota ou ao menos de assunto. Após sobreviver à batalha do impeachment, Bill Clinton tentou freneticamente costurar um acordo de paz no Oriente Médio. Richard Nixon foi a Moscou assinar tratados para o controle de armas nucleares antes de ser forçado a renunciar no escândalo Watergate. O republicano Dwight Einsenhower, depois que os democratas reconquistaram o Congresso em 1958, adorava viajar pelo mundo. Foi bem recebido na mesma cidade de São Paulo, visitada por Bush.

O atual presidente norte-americano é muito impopular na América Latina. Ele não deverá ser tratado efusivamente pelas multidões. Mas nesta viagem Bush selecionou cinco países (Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México) com os quais seu governo mantém relações cordiais, amigáveis e mesmo calorosas.

Existe um interesse óbvio de Bush nesta viagem, em particular na escala brasileira, para apregoar seu empenho na busca de fontes alternativas de energia e de alternativas ao presidente venezuelano Hugo Chávez, mas não é possível visualizar refinados planos geopolíticos e geoeconômicos.

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