Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026

Burundi: a imagem da fome e da miséria

Terça, 12 de Agosto de 2003 às 08:09, por: CdB

Quem já viu as imagens de adultos e crianças em uma situação crítica de fome e miséria na África talvez não imagine que eles são provenientes de um território localizado no centro-leste do continente chamado Burundi.

Eles são refugiados de uma guerra que acontece há 38 anos entre os grupos étnicos tutsis e hutus. É difícil acreditar, mas esses grupos já conviveram em paz e harmonia. Foi até 1885, ano em que a Conferência de Berlim colocou Burundi sob a tutela da Alemanha.

Quando os alemães chegaram, uma Monarquia tutsi governava o país com o apoio dos hutus. Os colonizadores, no entanto, deram aos tutsis, grupo que corresponde a apenas 15% da população, o status de elite privilegiada, com acesso exclusivo à educação, às Forças Armadas e a posto na administração estatal.

Depois da 1ª Guerra Mundial, Burundi é unificado com o território vizinho de Ruanda, ficando, desse modo, sob controle da Bélgica que mantém os privilégios dos tutsis. Em 1946, a tutela passa para a Organização das
Nações Unidas (ONU). Em 62, o país se torna independente e passa a ser governado por uma Monarquia tutsi.

Com a saída da força militar da Bélgica, a luta pelo poder se transforma em conflito étnico e alcança toda a sociedade.

Os ressentimentos acumulados pelos hutus durante o período colonial explodem em 1965, quando uma rebelião é brutalmente esmagada pelo governo. No ano seguinte, um golpe de estado liderado pelo primeiro-ministro derruba a monarquia. Ele proclama a república e assume a presidência.

As décadas seguintes são marcadas por golpes de estado e por intrigas entre tutsis que resultam no massacre de hutus, responsabilizados pelas crises. De 1972 até 88, rebeliões causam a morte de 200 mil pessoas. Várias nações, entre elas Tanzânia, Quênia, Uganda e Ruanda impõem sanções econômicas e isolam o país.

Em 91, a população aprova em plebiscito a Carta da União Nacional, que assegura igualdade de direitos para todas as etnias. A pacificação fracassa quando, no mesmo ano, rebeldes hutus invadem a capital Bujumbura e matam 114 pessoas.

Em represália, os tutsis massacram 3 mil hutus, forçando outros 50 mil a fugir para países vizinhos. A partir deste momento, grupos de homens, mulheres e crianças se aventuram pelo deserto, onde passam pelas condições mais desumanas de fome e miséria.

Em 93, acontecem as primeiras eleições livres. Um candidato hutu obtém dois terços dos votos e forma um governo multiétnico que dura quatro meses, até ser deposto e fuzilado por oficiais tutsis. Os hutus, então, rebelam-se e matam tutsis em várias partes do país.

Forças da ONU intervém e os golpistas recuam. Em 1994, o hutu Cyprien Ntaryamira é escolhido para a presidência. Dois meses depois, o avião em que viajava com o então presidente de Ruanda, Juvénal Habyrimana é derrubado em um atentado.

É o estopim para uma nova fase de violência, tanto em Burundi quanto em Ruanda. Em meio à guerra civil, é constituído um governo de transição. Mas os conflitos continuam e cerca de 50 mil hutus buscam refúgio na vizinha Tanzânia em 1995.

Em 1996, acontece um dos piores massacres. 300 tutsis que viviam num acampamento no centro de Burundi, em sua maioria mulheres e crianças, são mortos pelos rebeldes hutus. No mesmo ano, em conseqüência de uma grave crise política na República Democrática do Congo (ex-Zaire), 60 mil hutus refugiados voltam para o país.

Em 97, tutsis massacram 400 hutus, que respondem com uma sucessão de atentados. Ataques à capital matam cerca de 380 pessoas e provocam a fuga de 20 mil. Negociações de paz tem início de 1998, sob comando do presidente Julius Nyere da Tanzânia.

Entre setembro de 99 e início de 2000, o governo chefiado pelo major Pierre Buyuya, que havia dado um golpe em 96, remove 800 mil hutus para "campos de reagrupamento". As autoridades justificam a medida dizendo que é vital para garantir a segurança nacional.

A ONU, os Estados Unidos

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