Rio de Janeiro, 28 de Agosto de 2026

Burgueses, artistas e tapas

Segunda, 20 de Dezembro de 2010 às 09:25, por: CdB

A burguesia criou uma sociedade cujo centro é o mercado, expressão do valor das coisas (valor que sempre sofre mudanças)


20/12/2010



Leandro Konder





O que pensavam os brasileiros 60 anos atrás? Quais eram as leituras de maior sucesso? Se não me falha a memória, destacava-se na preferência dos leitores a narração romanesca das venturas e desventuras do adolescente Holden Caufield. Seu criador era um escritor estadunidense bizarro, que não cultivava uma vida literária intensa e alegre.

Os adolescentes estavam criando um estilo de vida que desconfiava das soluções fáceis, apontadas pela respeitabilidade dos poderes constituídos como força conservadora respeitável e, consequentemente, como representante autorizada da autoridade do capital.

Os jovens leitores do livro O Apanhador no Campo de Centeio ficavam comovidos até às lágrimas com a rebeldia do protagonista. O tempo, contudo, passou e, como costuma acontecer, derrubou (ou, ao menos, abalou) alguns dos mitos que alimentavam a fantasia das pessoas em 1951.

Agora, está acontecendo algo que ninguém previa que viesse a acontecer com o jovem herói de Salinger. Suas novas aventuras começam quando ele foge do asilo em que havia sido internado. Mas, o novo escritor Fredrik Colting, que pretende movimentá-lo, está mais subordinado a um programa conveniente aos ganhos da indústria cultural (ganhar dinheiro) do que empenhado na criação artística. A ressurreição de Holden pelas mãos de Fredrik é, afinal, uma mistificação, que lembra o que aconteceu há quase quatro séculos com o Dom Quixote.

Em 1605, depois de uma vida atribulada e intensamente vivida, Miguel de Cervantes lançou seu livro, que obteve grande sucesso e até hoje é um clássico da literatura. Pois bem, um certo Avellaneda aproveitou o êxito alcançado por Dom Quixote e lançou uma “continuação” da obra de Cervantes, uma iniciativa que lhe valeu bastante dinheiro.

Percebe-se que o ponto de partida de ambos os livros não é o mesmo: a base do romance de Cervantes é a força da sua inspiração artística. E a condição da “continuação” feita por Avellaneda é aquela que podemos reconhecer sem maiores dificuldades: a “picaretagem” estimulada pelo mercado.

Esse tem sido o desafio mais dramático que os escritores inventam e enfrentam na nossa sociedade de consumo. O candidato a escritor é forçado pela natureza da sua paixão a defender sua obra das pressões deformadoras que a cercam. A relação entre a arte e a literatura, de um lado, e as cruas exigências financeiras, de outro, tem sido, ao longo de todo século 20, uma relação tensa.

Há um autor, o crítico literário húngaro Georg Lukacs, que escreveu diversos livros sobre esse tema, e demonstrou de modo muito convincente a extensão dos estragos que a sociedade burguesa acarreta para a criação artística.

Por uma feliz coincidência, três livros do crítico Lukacs estão sendo lançados nas livrarias: Marxismo e Teoria da Literatura, Editora Expressão Popular; Cultura, Arte e Literatura. Editora Expressão Popular; Prolegômenos para uma ontologia do ser social, Editora Boitempo.

Lendo estes três volumes, o leitor estará bem capacitado para participar da discussão que vem girando em torno da relação Arte/Sociedade. Também se achará em condições de intervir nos debates filosóficos sobre problemas da estética em geral e sobre questões de teoria do conhecimento.

Além disso, sem simplificações dogmáticas, o leitor poderá, com segurança, apontar no comportamento do aproveitador e oportunista do personagem Caufield o caráter plagiário que o induziu a desrespeitar, afinal, o próprio princípio da propriedade privada, que deveria ser algo como uma questão de honra para a classe burguesa.

A burguesia criou uma sociedade cujo centro é o mercado, expressão do valor das coisas (valor que sempre sofre mudanças). Na medida em que se sente comprometida com o que muda e o que não muda à sua volta, a burguesia se condena a viver instalada na contradição, situação em que ela se mostra nas obras de arte dos seus artistas, e, de vez em quando, se estapeia com eles.

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