"Os verdadeiros indivíduos são raros nesses tempos de domesticação universal".
Maurice Barrès
Que grande brasileiro morreu na semana passada! Escrevi a seu respeito na Folha de S.Paulo na última quinta-feira (24), mas quero voltar ao assunto hoje. A morte de Brizola é um marco. Afinal, não é toda hora que temos um grande morto para enterrar e reverenciar.
Verdade seja dita: a política brasileira é um deserto só comparável ao do Saara. Poucos se salvam. O que prevalece é o despreparo, o oportunismo, o carreirismo. Ao longo da vida tenho conhecido políticos de diferentes partidos e diferentes orientações. Salvo um ou outro caso, posso lhes dizer, com toda a franqueza: falar em interesse nacional com essa gente é fazer papel de Quixote.
Por isso mesmo, nos últimos dias, tenho assistido com interesse arregalado a todas as reprises de entrevistas e depoimentos de Brizola de que tenho notícia. Vale a pena. É uma satisfação escutá-lo. Não é qualquer um que nos fala. O que salta aos olhos, imediatamente, é a sua imensa e esmagadora superioridade em relação aos políticos comuns.
É lamentável que Brizola tenha sido tão boicotado e tão vetado em vida, que a sua voz não tenha tido o alcance merecido. Não foi por acaso, evidentemente. Os motivos desse boicote são conhecidos. Brizola tinha estilo e grandeza. Fazia um uso devastador da palavra. Sabia emocionar. "Basta-me um microfone para derrotar os adversários", dizia. Era uma ameaça permanente à coligação de mediocridades que domina a política e a economia neste país.
"Um romântico extraviado na política", escreveu Carlos Heitor Cony. Romantismo? Talvez. Mas a palavra que, a meu ver, sintetiza as suas qualidades é outra: fibra.
Fibra é o que Brizola demonstrou ter em diversas ocasiões. Em 1961, por exemplo. Foi um grande momento da história brasileira. Com a renúncia de Jânio Quadros, armou-se um golpe. A junta formada pelos ministros militares, com apoio de forças civis, havia resolvido simplesmente rasgar a Constituição do país e impedir a posse do vice-presidente João Goulart. O golpe só não vingou por obra, coragem e tenacidade de um brasileiro: o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola.
Brizola tomou conta da Rádio Guaíba, e pôs "a alma para fora", como lembrou em depoimento recente à TV Cultura. O seu pronunciamento, transmitido da sede do governo, o Palácio Piratini, em 28 de agosto, começou assim:
"Peço a vossa atenção para as comunicações que vou fazer. Muita atenção. Atenção, povo de Porto Alegre! Atenção Rio Grande do Sul! Atenção Brasil! Atenção meus patrícios, democratas e independentes, atenção para estas minhas palavras! (...)
O Palácio Piratini, meus patrícios, está aqui transformado em uma cidadela, que há de ser heróica, uma cidadela da liberdade, dos direitos humanos, uma cidadela da civilização, da ordem jurídica, uma cidadela contra a violência, contra o absolutismo, contra os atos dos senhores, dos prepotentes". (...)
"Nós não nos submeteremos a nenhum golpe, a nenhuma resolução arbitrária. Não pretendemos nos submeter. Que nos esmaguem! Que nos destruam! Que nos chacinem, neste Palácio! Chacinado estará o Brasil com a imposição de uma ditadura contra a vontade de seu povo. Esta rádio será silenciada tanto aqui como nos transmissores. O certo, porém, é que não será silenciada sem balas". (...)
O que Brizola pretendia, de imediato, era conclamar os gaúchos a sair às ruas para resistir ao golpe:
"Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste Palácio, numa demonstração de protesto contra essa loucura e esse desatino. Venham, e se eles quiserem cometer essa chacina, retirem-se, mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Poderei ser morto. Eu a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa. Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta Nação. Aqui re