Empresas britânicas estão contando com a experiência de trabalhar nos Jogos Olímpicos de Londres no ano que vem para tentar capitalizar o potencial de negócios gerado pelo evento no Rio em 2016.
Vender produtos e consultoria em novas tecnologias, sustentabilidade, planejamento e segurança, por exemplo, são alguns dos nichos que as companhias pretendem explorar nos próximos cinco anos.
Nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, os empresários britânicos fecharam negócios da ordem de 2 bilhões de libras (cerca de R$ 5,4 bilhões).
O diretor de Projetos Olímpicos da Câmara Britânica de Comércio e Investimento (UKTI, na sigla em inglês), Clive Allcorn, disse à BBC Brasil que a expectativa para os Jogos do Rio é superar esse valor.
"Creio que é uma expectativa realista, porque temos muito mais a oferecer hoje do que tínhamos na época dos Jogos de Pequim. Por conta do trabalho que já estamos fazendo em Londres, temos um pacote muito mais amplo para oferecer em termos de eventos globais", disse.
Além disso, Allcorn crê que a questão da sustentabilidade fará os Jogos do Rio serem mais lucrativos para as empresas britânicas que os de Pequim.
"Os Jogos de Pequim não tinham a ambição de ser sustentáveis ou particularmente focados em minimizar a sua pegada de carbono. Era um projeto para exibir a China moderna. O fato de o Rio querer sediar os Jogos mais sustentáveis da história deve mudar a proporção de como e onde o dinheiro será investido."
Imagem sustentável
A Câmara britânica espera que os Jogos Olímpicos no Brasil movimentem recursos de ordem semelhante ao que foi gasto na China, cerca de US$ 60 bilhões.
O destaque dos negócios britânicos em Pequim 2008 foi o design e a construção do Estádio Nacional, o famoso Ninho de Pássaro, que requereu aços de alta tecnologia.
As empresas britânicas também conquistaram os contratos para a construção do centro aquático, da linha olímpica de metrô, de sistemas de energia de emergência e até de medalhas olímpicas.
"Somos uma economia de serviços, portanto nossas exportações também são desse setor. Não vamos necessariamente armar tijolos e concreto", afirma.
No Rio, Allcorn diz que as empresas britânicas estão focadas em contratos que envolvam a prestação de serviços de design, arquitetura, planejamento de projetos, consultoria nas áreas de segurança e sustentabilidade, fornecimento de material especializado e outras "áreas em que possamos prestar serviços de alto valor agregado".
Em um relatório intitulado O momento de o Brasil brilhar, a Câmara afirma que o custo de construir as arenas olímpicas é estimado em US$ 22 bilhões (cerca de R$ 35 bilhões). Na conta, foram incluídas obras que, embora não sejam de natureza esportiva, foram aceleradas a fim de estar prontas para os Jogos, como Porto Maravilha e a reforma do Maracanã.
Além disso, o relatório destaca que a cidade precisará de uma "reformulação séria" do seu setor hoteleiro, que atualmente "deixa a desejar em termos de qualidade e quantidade". A meta seria dobrar o número de quartos disponíveis, para 50 mil, afirma o documento.
Mas a Câmara recomenda aos empresários que não se limitem a buscarnegócios relativos aos Jogos Olímpicos e procurem tirar proveito tambémdo bom momento da construção civil brasileira, que contribui com mais de 5% para o Produto Interno Bruto nacional, de US$ 1,8 trilhão.
"Queremos incentivar as empresas a olhar o Brasil como um todo em termos de oportunidade, não apenas no contexto dos Jogos Olímpicos", diz Allcorn.
Para tanto, ele conta que as empresas britânicas já estão procurandose associar com as grandes empreiteiras brasileiras, para "setropicalizar" e estar bem posicionado quando as disputas por contratosolímpicos tiverem início.
Em seu relatório, a Câmara destaca que as empreiteiras brasileiras "são as mais bem posicionadas para navegar a burocracia brasileira e as práticas de negócios idiossincráticas, e oferecer acesso a uma rede de contatos locais em um mercado intenso e ferozmente competitivo."
De Londres para o Rio
Para fortalecer o argumento das empresas britânicas, os organizadores dos Jogos de 2012 apontam semelhanças em termos de projetos de desenvolvimento das áreas próximas ao parque olímpico tanto em Londres como no Rio.
A região leste da capital britânica, historicamente mais carente de infraestrutura que o resto da cidade, recebeu investimentos de pelo menos R$ 5,4 bilhões na implantação de linhas de energia elétrica, pontes, vias e outras obras que nos últimos anos já mudaram a cara da área que acolherá a maior parte do burburinho.
Além disso, mais de R$ 2 bilhões foram direcionados para obras no metrô londrino e no sistema de transporte que servirá a região.
Allcorn afirma que "os desafios em termos de infraestrutura, divisão social e carência são muitos no Rio da mesma forma como foram no leste de Londres".
"Muito do trabalho em Londres foi em torno da sustentabilidade, e isto é algo que deve ser incluído no projeto logo no início", diz Allcorn.
"Não se trata apenas de usar tecnologias ou processos ecologicamente corretos nas arenas, mas tentar olhar adiante. É fazer com que as idéias para regeneração não terminem ao final dos Jogos, e que o conceito de sustentabilidade seja um conceito de longo prazo."