Os países que integram os BRICS ainda não se pronunciaram, oficialmente, quanto ao governo do presidente de facto, no Brasil, mas pressões internas aumentam
Os países que integram os BRICS ainda não se pronunciaram, oficialmente, quanto ao governo do presidente de facto, no Brasil, mas pressões internas aumentam
Por Redação, com agências internacionais - de Cidade do Cabo, Moscou, Nova Délhi e Pequim
Complica-se, antes mesmo de completar uma semana no cargo, o panorama internacional para o governo do presidente de facto, Michel Temer. Diante do golpe de Estado consolidado na última quinta-feira, a gestão imposta por uma decisão do Senado soa mal aos ouvidos dos BRICS, o grupo que, além do Brasil, integra a Rússia, Índia, China e África do Sul. Embora nenhum destes países tenha se pronunciado, oficialmente, quanto ao reconhecimento da nova gestão, a pressão interna aumenta, no sentido de se repudiar o governo golpista.
Integrantes do PC russo se manifestaram, nesta segunda-feira, por um boicote imediato ao governo de facto de Michel Temer
Durante o fim de semana, um vídeo no qual o locutor de um canal russo de notícias lia a notícia do afastamento de Dilma Rousseff e apontava a existência de um golpe de Estado, no Brasil, originou a versão de que os governos russo e chinês não teriam reconhecido como legítimo o governo de Michel Temer.
Assista ao vídeo, a seguir:
Nesta manhã, porém, o porta-voz do governo chinês, mais cauteloso, apenas ponderou que houvesse estabilidade no Brasil após a decisão do Senado, “por supostas manipulações fiscais de Rousseff em 2014 e 2015”, afirma o texto oficial ao qual a reportagem do Correio do Brasil teve acesso.
— Estamos acompanhando de perto a situação no Brasil. Esperamos que todos os lados pertinentes no Brasil possam apropriadamente tratar a situação atual e manter a estabilidade política do país, bem como o desenvolvimento social e econômico — acrescentou o porta-voz da chancelaria chinesa, Lu Kang, em uma entrevista coletiva diária.
"Como a China e o Brasil são parceiros estratégicos abrangentes, damos grande importância ao desenvolvimento dos laços com o país", de acordo com Lu. Apesar do governo de facto, o governo chinês acredita que “a amizade e a cooperação entre as duas nações continuarão a avançar.
Rússia calada
Embora o governo russo não tenha se pronunciado, oficialmente, contrário ou favoravelmente ao governo de facto, setores da diplomacia russa, no Brasil, estão céticos quanto a um possível boicote econômico e político.
— Não há nada no horizonte que possa sugerir uma posição contrária da Federação Russa ao governo em curso. Nenhuma nota oficial foi emitida, até agora, e acreditamos que não haverá nenhum pronunciamento nesse sentido — disse a fonte, ao CdB.
O silêncio oficial da Rússia, porém, não significa que as pressões internas sigam em um crescendo, principalmente por parte das legendas de esquerda, naquele país. Para o Partido Comunista da Rússia, o golpe de Estado, em curso no Brasil, é obra de Washington. Segundo o PC russo, os EUA realizaram “uma ação forte de desestabilização” no Brasil e “uma próxima revolução colorida”.
“Esta resolução foi precedida por uma forte ação de desestabilização da situação política e econômica no Brasil. Mais uma vez estamos presenciando uma revolução colorida realizada pelo imperialismo americano a estabelecer a sua dominância no país, onde a presidente colocava os interesses do povo acima dos interesses de monopólios americanos e realizava uma política econômica e social independente”, diz o comunicado.
Os comunistas consideram que os EUA usam qualquer situação com protestos sociais para mudar o regime.
“O Partido Comunista da Federação da Rússia demanda imediatamente deixar a desestabilização da situação politica no país, a intervenção na política interna do Estado soberano e dar ao povo brasileiro o direito de definir o seu futuro independentemente”.
Os comunistas russos também afirmam que Washington tem medo de que os membros do grupo BRICS, de qual fazem parte a Rússia e o Brasil, fortalecerão a sua política econômica independente e começarão a realizar pagamentos em moeda nacional, que pode causar muitas perdas para “a globalização americana e reforçar o desejo de muitos países sair sob o controlo dos EUA”.
Ação contra os Brics
A opinião do PC russo não está isolada. Na opinião do diretor do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, Vladimir Davydov, o Brasil enfrenta uma grande crise econômica que não pode ser ultrapassada sem resolver problemas políticos. O problema é que o povo agora tem grandes esperanças. Se o novo governo tiver de cortar gastos para programas sociais, perderá todo o apoio em breve. O cientista político expressou a esperança de que o Brasil não passe por uma situação como aquela que existiu na Argentina em 2001-2002 quando o povo argentino se manifestou com o lema principal: “Que se vão todos”.
Em geral, Davydov pensa que o afastamento de Dilma é um evento muito “triste” nem só para o Brasil, mas para toda a América Latina. O evento acontecido é um sinal de que há tendência de desestabilizar toda a região por meio de exercer a pressão sobre os líderes destes países. É uma caraterística para todos os 33 países latino-americanos, especialmente para os que têm laços estreitos com a Rússia e a China.
O especialista afirmou que tendo em conta que o Brasil é o membro de grupos internacionais como G20, BRICS e outros, esta tendência de desestabilização pode ter um efeito negativo sobre o papel destas associações na política internacional.
Índia e África do Sul
Nem o ‘panelaço’, misturado ao ‘apitaço’ e os gritos de “Fora Temer”, realizados nas principais capitais do país, fizeram com que o governo da África do Sul se pronunciasse quanto à investidura de Temer na Presidência da República. Segundo um funcionário do governo sul-africano, que prefere não se identificar, “dificilmente o governo (de Jacob) Zuma se pronunciará contra Michel Temer”.
— Não há qualquer movimentação nesse sentido, mesmo porque os problemas da África do Sul também não permitem que se distancie em demasiado das questões internas — afirmou o funcionário, ao CdB, em condição de anonimato.
Em relação à Índia, o novo chanceler interino, José Serra, não precisa se preocupar tão cedo. O país também prefere o silêncio a um possível confronto com o parceiro comercial.
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.