O brasileiro Ricardo Navajas, de 50 anos, que nunca foi reconhecido no Brasil, é o técnico responsável pela classificação da seleção venezuelana nos Jogos Olímpicos da China, pela primeira vez na história do país de Hugo Chávez.
A conquista não foi surpresa para Navajas. Ela foi planejada desde quando assumiu a equipe em maio de 2007, 45 dias antes dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Surpresa mesmo foi a ligação do presidente Chávez logo após a final do Pré-Olímpico da América do Sul, quando a Venezuela venceu a Argentina e carimbou o passaporte rumo às Olimpíadas. Tanto que o técnico não levou à sério e dispensou o telefonema.
– Achei que era mentira quando me disseram que o Hugo Chávez ligou no celular e passei para o roupeiro. Falei: "Olha aí, o presidente quer falar com você!" O jogo estava sendo transmitido ao vivo, e ele estava vendo. PEle disse, inclusive, que tinha visto ao vivo a minha reação de passar o telefone no vestiário e me parabenizou e falou que daria condições às equipes classificadas - conta o brasileiro, sem medo de que haja pressão oficial por resultados, ou que o esporte seja envolvido em propagandas políticas.
A iniciativa de assumir a seleção da Venezuela e deixar a família no Brasil aconteceu pela possibilidade de levar o país às Olimpíadas. Navajas conta que resolveu investir. Ao chegar no país, não encontrou problemas. Contou com o apoio da Confederação Venezuelana de Vôlei, recebeu autonomia e não teve resistências dentro.
O jeito estressado de Navajas não foi problema na seleção. Ele conta que os jogadores diziam: 'Você é chato, é difícil trabalhar com você, mas obrigado'
– Eles foram campeões no Pan em 2003 e se acomodaram. Deixaram correr muito frouxo. Sentaram na glória e esperaram acontecer, achando que iriam ganhar sempre. Por isso, tudo ficou muito desorganizado. Mas, mesmo dizendo que era difícil trabalhar comigo, eles foram incorporando aos poucos o meu sistema. Se dedicaram para se organizar, tanto que depois da vaga, todos vieram agradecer. Foi unânime - revela ele, contando que a estrutura com a qual trabalha é razoável, mas espera que melhore com a conquista da vaga olímpica.
Navajas tinha tudo programado, mas sabia que não conseguiria alcançar o seu objetivo sozinho. Por isso, levou os compatriotas Carlos Almeida, o Chiquita, e Thiago Silva como parte da comissão técnica. O primeiro como assitente técnico e preparador físico, e o segundo como responsável pelas estatísticas.
Ricardo Navajas já poderia se considerar um campeão apenas por ter conseguido levar a Venezuela às Olimpíadas, situação nunca ocorrida, e também por ter vencido em um país que não é o seu. A vitória sobre a Argentina já é passado. Agora o técnico quer trabalhar para conquistar uma medalha, seja ela de ouro, prata ou bronze.
Após os Jogos Olímpicos de Pequim, Navajas já tem planos. A não ser que seu contrato seja renovado ou que receba uma excelente proposta de trabalho, nada de treinos desgastantes e estresse na beira das quadras durante as partidas. Nem dentro do Brasil ou fora, como na Venezuela. O que ele mais deseja, após cumprir sua meta, é assumir novos desafios, como o de trabalhar com outros esportes e de outras maneiras.
- Se possível, quero ser um Secretário de Esporte aqui da minha região. Tenho vontade de trabalhar com todos os esportes. Tenho conhecimento suficiente para trabalhar com isso.. Quero pegar toda a experiência que ganhei dentro e fora do Brasil e expandir, passar tudo para outras pessoas - finaliza Ricardo Navajas.