Brasil vive 'esquizofrenia' com protestos, segundo jornal espanhol
Uma análise publicada no jornal espanhol El País nesta segunda-feira diz que os protestos que vêm tomando as ruas das principais capitais brasileiras desde a semana passada causam "perplexidade" dentro e fora do país e geram várias perguntas e poucas respostas sobre as razões da situação.
Para autor, Brasil vive paradoxo entre crescimento e exigência por serviços de qualidade
Uma análise publicada no jornal espanhol El País nesta segunda-feira diz que os protestos que vêm tomando as ruas das principais capitais brasileiras desde a semana passada causam "perplexidade" dentro e fora do país e geram várias perguntas e poucas respostas sobre as razões da situação. "Por enquanto, o que existe é um consenso de que o Brasil, invejado internacionalmente até agora, vive uma espécie de esquizofrenia ou paradoxo que ainda deve ser analisado ou explicado", afirma o artigo, intitulado "Por que o Brasil e agora?".
O texto, assinado pelo correspondente do jornal no Rio de Janeiro, Juan Arias, indaga por que agora surge um movimento de protesto quando, ao longo dos últimos dez anos, o Brasil viveu como que "anestesiado" por seu êxito compartilhado e aplaudido mundialmente.
- O Brasil está pior do que há dez anos?", pergunta o autor. "Não, está melhor", responde ele, acrescentando que o país está mais rico, tem menos pobres e testemunha o crescimento do seu número de milionários. "É mais democrático e menos desigual - completa Arias.
O autor segue com mais perguntas. "Por que saem às ruas para protestar contra a alta dos preços dos transportes públicos jovens que normalmente não usam esses meios porque já têm carros, algo impensável há dez anos?
- Por que protestam estudantes de famílias que até pouco tempo não tinham sonhado em ver seus filhos pisarem na universidade?
Um Brasil melhor
O texto ainda questiona por que o Brasil, "sempre orgulhoso do futebol, agora parece estar contra o país sediar o Mundial".
Na avaliação do autor, a resposta para o paradoxo que hoje vive o Brasil talvez esteja ligada à formação da chamada nova classe média; ao fato de que os pobres que passaram a ter uma vida melhor estão conscientes de ter dado um salto qualitativo na esfera do consumo e agora "querem mais".
- Querem, por exemplo, serviços públicos de primeiro mundo; querem uma escola que, além de acolhê-los, lhes ensine com qualidade, o que não existe; querem uma universidade que não seja politizada, ideologizada ou burocrática. Querem que ela seja moderna, viva, que os prepare para o trabalho futuro.
Ainda segundo o texto, os brasileiros, "querem hospitais com dignidade, sem meses de espera, onde sejam tratados como seres humanos".
- E querem, sobretudo, o que ainda lhes falta politicamente: uma democracia mais madura, em que a polícia não atue como na ditadura.
- Querem o impossível? Não - afirma o texto, completando que, ao contrário dos movimentos de 68, "que queriam mudar o mundo", os brasileiros insatisfeitos com o que já alcançaram querem que os serviços públicos sejam como os do primeiro mundo.
"Querem um Brasil melhor. Nada mais."
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